Voltar a movimentar os dedos, as mãos, as pernas, após uma lesão grave, pode ser uma tarefa árdua para quem acaba de passar por um trauma e uma cirurgia. Mas, é com a ajuda de materiais simples como o papel, tesoura, tinta e pincel que a equipe de Terapia Ocupacional do Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), em Belém (PA), tem conseguido estimular a motricidade e a recuperação da autonomia dos pacientes internados na Unidade, que é administrada pela Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, sob contrato com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).
São pacientes como o eletricista Odivaldo de Albuquerque Moraes, de 43 anos, que ao cair de uma escada que quebrou enquanto ele a utilizava, quebrou o punho esquerdo. Odivaldo já teve que passar por duas cirurgias no punho, e desde o dia 9/4 está internado no Hospital Galileu. Foi nas oficinas terapêuticas que ele começou a fazer os primeiros movimentos com as mãos.
“Isso é muito importante para a gente, principalmente no meu caso que não estava conseguindo mexer a mão, é muito bom. Meus movimentos estão voltando ao normal. Nas oficinas eu já consigo cortar com essa mão, pintar, colar”, disse Odivaldo. “Espero que continuem com esse trabalho que está ajudando muitas pessoas, assim como me ajudou”, completou.
As oficinas terapêuticas acontecem toda semana no Hospital Galileu, às quintas-feiras, no turno da tarde. Além dos pacientes, os acompanhantes também são convidados a participar das atividades. A Terapeuta Ocupacional da Unidade, Ana Carolina Damasceno, é a responsável pela ação que, além de estimular a motricidade, através da realização de atividades manuais, como a confecção de porta canetas, entre outros materiais; promove também jogos que trabalhem a expressão corporal dos usuários.
Para envolvê-los nas oficinas, Ana Carolina Damasceno explica que procura promover atividades significativas para os pacientes, por isso sempre busca conhecer o perfil de cada um, e assim reabilitá-los para a volta ao cotidiano. Segundo ela, a primeira evolução que percebe em relação aos pacientes é o fortalecimento do vínculo deles com a equipe, a partir da percepção de que o Hospital está preocupado com eles de uma forma total.
“Esse paciente adere muito mais ao tratamento, melhora o humor, o nível de ansiedade, o estado emocional. A partir da atividade eles também perdem o medo de mover aquele membro que sofreu a lesão, então o quadro clínico como um todo apresenta evolução”, afirmou a Terapeuta Ocupacional, Ana Carolina.
Físico X Emocional
De acordo com a psicóloga Jaísa Araújo, que atua no turno da tarde no Hospital Galileu, até mesmo a percepção da dor pode ser atenuada em um paciente que participa dessas atividades e consegue resgatar sua autonomia mesmo durante o processo de internação. “Como a dor é um fator subjetivo, é claro que se você não dorme, se você está preocupado, se você está com a sua atenção em outros fatores que também estão lhe causando sofrimento, aquela dor inicial vai ser muito mais intensa”, explicou.
Ela afirma que as oficinas permitem um resgate do “eu” para o paciente. “O próprio contexto do acidente já faz com que a pessoa seja retirada do seu convívio familiar, social, então muitas perdas são vivenciadas, e acaba que a identidade deles é perdida nesse processo. Com essas atividades a autonomia deles é resgatada, eles percebem que podem fazer algo e se divertir”, afirma Jaísa Araújo.
A declaração da psicóloga é confirmada nos depoimentos dos pacientes. O marinheiro Elias Santana, de 38 anos, conta que gosta tanto das oficinas que fica esperando às quintas-feiras. “Tem me ajudado bastante porque é um momento de interação, a gente sai um pouco da enfermaria, se diverte, e desenvolve uma tarefa que requer um pouco mais de concentração. Talvez eles não se deem conta do benefício que fazem aos pacientes, mas é algo muito interessante, muito bom e que a gente não encontra em todos os hospitais, então sou muito grato”, concluiu.

