O encontro do passado com o presente pode colapsar o futuro?

Esse questionamento me vem à mente diante do que estamos vivenciando enquanto humanidade nos últimos 4 meses, com a repentina eclosão do novo coronavírus (Covid-19), que tem causado vítimas em todo o mundo.

No mês de março é comemorado o Dia Mundial da Luta contra a Tuberculose (24/3), e quando penso no passado é justamente sobre essa doença que me refiro. A tuberculose é uma doença milenar, com identificação do seu causador, a bactéria Mycobacterium tuberculosis, em ossos humanos do período Neolítico, mas, que ainda hoje, e principalmente no Brasil, continua presente e ativa, causando mais de 70 mil novos casos em nosso País apenas no ano de 2018, com incontáveis óbitos.

A tuberculose continua muito presente, sendo um problema de saúde pública e por ser uma doença negligenciada, devido sua evolução lenta e comportamento progressivo, cem muitas ocasiões, possui o diagnóstico tardio, sem perspectivas terapêuticas positivas nesta fase. A doença ainda é uma das principais causas de morte em pessoas vivendo com HIV – que estão em estágio de AIDS, ou seja, temos um grande problema com o qual ainda não conseguimos lidar completamente.

Ao pensar no Covid-19, é natural imaginar o presente, observando justamente os principais grupos de risco com chance de, além de apresentarem a doença de forma grave, que ela consiga evoluir para o óbito.  Os pacientes com tuberculose pulmonar se tornam uma preocupação por diversos motivos que precisam de atenção.

Não dispomos de dados de análises clínicas que garantam que o paciente portador de tuberculose pulmonar tenha um risco maior caso contraia o novo coronavírus. No entanto, se extrapolarmos para estes pacientes os conhecimentos que já temos a respeito da doença, entendemos sim, que estes pacientes estão em risco, diante do grau de comprometimento pulmonar causado pela tuberculose no momento do diagnóstico.

Seguindo este raciocínio, e em posse de dados que atestem a situação dos pacientes com tuberculose no Brasil, eles em grande parte estão inseridos em um contexto de vulnerabilidade social, bem como portadores de outras comorbidades, como, por exemplo, o HIV. Podemos entender que, diante da acentuada disseminação do coronavírus, é possível que muitos dos pacientes não diagnosticados permaneçam sem o devido diagnóstico e terapêutica adequada, aumentado as chances de contaminação dos seus familiares e pessoas com quem possui convívio social, além de possível óbito causado pela doença.

Os que já possuem diagnóstico de tuberculose, diante da fragilidade social e medidas adotadas para controle do Covid-19, podem perder o seguimento adequado e, por questões diversas, descontinuar o tratamento medicamentoso, contribuindo para recrudescência da fase transmissível da tuberculose. Há ainda, o grupo que não possui diagnóstico, mas mantem atividades sociais, sejam laborais ou recreativas, aumentado a chance de contrair o coronavírus e então evoluir de forma grave pelo comprometimento pulmonar causado pela tuberculose – ainda não elucidada.

Diante deste fato, é de suma importância o fortalecimento dos serviços de referência de seguimento e tratamento de tuberculose, assim como das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), para que um planejamento que não desintegre o fluxo seja estabelecido, e desta forma, não permita que o passado, ao se encontrar com o presente, colapse o futuro.

 

Rafael Malta é Infectologista no Hospital Estadual de Urgência e Emergência, unidade gerenciada pela Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, em Vitória, no Espírito Santo.