Dia de Nossa Senhora de Lourdes

Oração

Jornada Mundial de Oração pelos Enfermos

Criada por São João Paulo II

Toda limitação implica sofrimento: sofre a criança que vê limitado seu tempo de diversão ou de sono; sofre quem experimenta o limite do alimento que lhe é necessário; sofre quem sente a limitação do dinheiro necessário ao próprio sustento ou ao sustento de sua família; sofre quem vê limitada sua saúde.

Todo o criado, porque criado é limitado. O Criador encontra em Sua criatura o prisma da limitação dessa mesma criatura. Quem vai fazer uma casa, determina, antes, o seu tamanho, os seus limites. Deus, em sua criação, encontra em cada criatura os seus limites específicos e que a determinam.

Vemos, com facilidade, o sofrimento dos animais. O homem, no entanto, sofre mais que qualquer animal, por ter consciência de seus limites e, como consequência, por ter consciência de seu sofrimento.

O tema do sofrimento é tratado finamente, por João Paulo II, em sua carta apostólica SALVICI DOLORIS, que em português traz o nome: O SENTIDO DO SOFRIMENTO HUMANO. Logo no seu início, o Papa escreve que o sofrimento é quase inseparável da existência terrena do homem.[1] Em Gênesis 3,14, lemos: À mulher, ele disse: multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos.

O tema desta reflexão tem muito sentido, nesta época da pandemia da Covid-19.

A proposta de uma atitude cristã diante do mistério da dor e da morte só será entendida e acolhida por quem perceber toda a riqueza espiritual embutida no mistério do sofrimento humano.

Nunca se pode perceber o quanto uma pessoa sofre, física e espiritualmente, sobretudo na fase terminal de sua vida. Toda dor traz solidão; o sofrimento humano além de físico ele é também psíquico e espiritual. Se eu não tenho uma experiência pessoal da doença e da morte, naturalmente não conseguirei perceber todo o alcance do sofrimento de quem se encontra em tais condições, ou de quem tem uma pessoa amada nesse sofrimento.

A resposta à necessidade de um doente nasce de um comum ser na vida.

Ensina o Papa, em sua carta, que o sofrimento é algo mais amplo e mais complexo que a doença. A etimologia desta palavra é: sub – fero: estar sob um peso, suportar. O cristianismo mostra que o existir é essencialmente um bem. O homem sofre por causa do mal que é uma certa falta, limitação ou distorção de um bem. O homem sofre por causa de um bem do qual não participa.[2]

O SENTIDO DO SOFRIMENTO

O homem sabe que sofre e se pergunta o porquê. Vê ao seu redor pessoas que sofrem sem culpa e vê pessoas culpadas sem a pena correspondente! Desde o início de minha vida sacerdotal, senti estar nesse tema um dos mais sérios obstáculos, para muitos, na caminhada de fé. O sofrimento do justo e o bem-estar do injusto são questões angustiantes para o homem.

Começamos a perceber o nexo da questão ao entendermos que vale a pena sacrificar um bem menor para se ter um bem maior. Renuncia-se, sem muita dificuldade, a uma lauta refeição em benefício do próprio coração combalido. O atleta se impõe regimes de vida, exercícios e controle alimentar para atingir um equilíbrio físico almejado. Aceita-se um sofrimento transitório para se livrar de um outro definitivo.

PRAZER E FELICIDADE

O prazer está na linha da matéria, quando a felicidade permanece no campo espiritual. Um jovem acidentado, sofre com suas dores, mas sente-se feliz com a presença de seus pais a seu lado, no quarto de um hospital. Em um velório há a dor moral da perda de uma pessoa querida e a felicidade pela presença de tantos amigos a partilhar a dor. A alegria partilhada se multiplica quando o sofrimento partilhado diminui.

Jesus vem ao mundo para livrar o homem do sofrimento definitivo.

Um irmão bispo, já falecido, costumava comparar o mundo em que vivemos a um pequeno e pobre hospital de nossas cidades do interior. Ali, com exceção da maternidade, quase tudo é sofrimento. Sofrem os doentes e sofrem os que acompanham os doentes. A mãe, que goza de saúde, e fica no hospital ao lado de seu filho doente, ela o faz por solidariedade ao filho, desejando que ele recupere sua saúde. Ela não precisa ficar no hospital, pois está com saúde. O hospital é pobre, há calor, é mal ventilado, é apertado. Há o cheiro dos remédios. Há os gemidos dos que sofrem. Ela sofre ao ver seu filho sofrer. Mas ela sofre em solidariedade ao filho na esperança de que ele se recupere e volte para casa.

O mundo é um grande hospital. Nele, sofre quem está doente pelo pecado e quem tem a saúde de Deus. O justo, estando no mundo, sofre em solidariedade ao injusto, o pecador, para que ele recupere sua saúde espiritual. Jesus Cristo ao entrar neste mundo, neste grande hospital, com tantos doentes pelo pecado, sofre com o ambiente do pecado. Sofre sem ser doente. Sofre sem ser pecador. Sofre os sofrimentos transitórios para dar ao homem, à humanidade, a saúde definitiva, a saúde de Deus, a salvação de Deus. Jesus sofre os sofrimentos transitórios, em solidariedade ao homem que corre o risco de se acabar num sofrimento definitivo.

A salvação de Deus é a saúde de Deus. Quem está na graça de Deus não sofre a grande e maior privação: a da vida de Deus, da saúde de Deus. Esta privação é mais dolorosa que aquelas de que falávamos no início desta reflexão: a privação do lazer, do alimento, do dinheiro, da saúde física e psíquica.

Cristo com sua morte não suprime os sofrimentos temporais, mas traz luz nova e esperança ao homem. Ele se coloca próximo do sofrimento humano e proclama as oito bem-aventuranças.

Pois nossas tribulações de um momento são leves com relação ao peso extraordinário de glória eterna que elas nos preparam. O nosso objetivo não é o que se vê, mas o que não se vê; o que se vê é provisório, mas o que não se vê é eterno.[3]

O pecado do homem é a causa do sofrimento do Redentor. Cristo sofre voluntariamente e inocentemente. Ensina-nos João Paulo II, que na cruz de Cristo, não só se realizou a redenção, mas o próprio sofrimento foi redimido e eleva o sofrimento humano ao nível da redenção. Toda pessoa que assume em sua vida o sofrimento redentor de Cristo, ela se coloca como justo que sofre em solidariedade ao irmão que está na doença do pecado.

Ao perceber e aceitar a dimensão transitória e fugaz do sofrimento, o próprio sofrimento passa a se constituir um chamamento a manifestar a grandeza moral do homem, bem como a sua maturidade espiritual.[4]

Continua o Papa, dizendo que aqueles que participam do sofrimento de Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da cruz e da Ressurreição. As fraquezas de todos os sofrimentos humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus, manifestada na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade.[5]

Transcrevo mais umas linhas preciosas do Santo Padre:

No decorrer dos séculos e das gerações, tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular. A esta ficaram a dever sua conversão muitos santos. … O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. … O homem percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando, ele próprio, participante dos sofrimentos de Cristo. …

Cristo não explica abstratamente as razões do sofrimento; mas, antes de mais nada, diz: “Segue-me!” Vem! Participa com o teu sofrimento desta obra da salvação do mundo, que se realiza por meio do meu próprio sofrimento! Por meio da minha cruz. À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido salvífico do sofrimento.[6]

Outra perspectiva que ilumina a compreensão do sofrimento é que ele está a desencadear no coração do homem o amor e a sensibilidade para com o irmão que sofre. O homem só se realiza pelo dom de si mesmo. Entrem numa casa onde há uma criança doente ou excepcional e notarão que as pessoas são mais humanas e que se tratam com mais carinho e respeito. Entrem noutra casa onde não se vê o sofrimento físico ou psíquico e se perceberá que as pessoas criam ao redor de si um outro tipo de sofrimento pela falta do amor cristão e do respeito mútuo. Por tudo aquilo que fizermos de bem ao irmão sofredor, teremos a doce resposta de Cristo que nos diz: A mim o fizestes.

ALGUMAS PISTAS CONCRETAS

O que dizer a uma pessoa que sofre, a uma pessoa doente?

Primeiro: nunca tirar a esperança de uma pessoa enferma. Por mais difícil que seja a situação, vale lembrar que, a cada dia, a medicina consegue novos recursos em favor da saúde.

É bom recordar que o paciente que não fala é porque não se sente compreendido. Às vezes, é melhor estar junto do doente e fazer silêncio. Quem prepara um discurso para o doente, satisfaz a si próprio.

O doente quer falar, expressar seus medos, suas esperanças. Quando se fala ao doente das esperanças, ele dormirá bem.

Escutar não é fácil. Saber perceber não só as palavras, mas é importante entender os sentimentos, os pensamentos, os estados de ânimo.

Muitos dizem: Comigo foi muito pior. Fazem de si o centro da conversa e não ajudam aquele que sofre.

No acompanhamento de um doente, em processo de morte, é melhor escutar o moribundo, aceitar suas reações (mecanismo de defesa). É bom tranquilizar o paciente, evitando palavras inúteis, aceitá-lo sem julgamento, sem confrontá-lo com alguém. É importante permanecer disponível e deixá-lo afrontar o tema da morte, bem como ajudá-lo a afrontar progressivamente a realidade.

Não deixá-lo só, em circunstâncias de depressão. É melhor escutá-lo, sustentá-lo, respeitar seu choro, seus silêncios. É bom ajudá-lo na retrospectiva de sua vida, mostrar-lhe que é uma pessoa importante.

Toda pessoa tem uma ferida. Toda pessoa tem a capacidade interior de curar sua ferida. Se nos aproximarmos da ferida, podemos chorar juntos. Se nos aproximarmos da pessoa, a ajudamos a se curar.

Há limites na relatividade da ajuda humana. Há dificuldade na relação interpessoal. Há uma dificuldade maior num colóquio entre uma pessoa sã e uma doente. Se não posso dar a cura física, posso dar a cura psicológica, a força interior, a coragem da fé. A cura acontece quando o paciente entende o sentido de seu sofrimento e o vive usando todas as suas capacidades e energias.

A fé cristã nos ensina que nossos sofrimentos não são castigo de nossos pecados pessoais. Os santos também sofreram. Lembremo-nos de Santa Rita, São Lázaro, São João Paulo II, Nossa Senhora das Dores e outros. É muito importante dizer, ao doente ou a quem sofre, que Deus nunca permite a alguém um sofrimento superior a sua força. Isso seria contra a bondade divina.

Não é Deus que nos manda o sofrimento. Ele permite o sofrimento. Jesus combateu o sofrimento e curou os doentes. Ele chorou à porta do túmulo de seu amigo Lázaro.

Neste tempo de pandemia da Covid-19, em que vemos o multiplicar do sofrimento, quer no medo pelo perigo do contágio, quer no sofrimento solitário de pessoas queridas nas UTIs, quer na dor de quem não consegue, ao menos, estar ao lado dos enfermos, alguns em sua última agonia, temos que levantar nossos olhos para o Cristo que, por nós, sofreu e morreu na Cruz!

A paixão de Cristo continua na história de cada irmão que sofre, em cada lágrima derramada, em cada gemido e em cada último suspiro! A paixão de Cristo se prolonga na viuvez, na orfandade e na perda de um filho – dor tão suprema – que não tem nome!

A ressurreição de Cristo, porém, continua na história em cada lágrima que é enxugada, em cada dor aliviada, em cada sofrimento que é consolado. Médicos (as), enfermeiros (as) e auxiliares atualizam os efeitos da Ressurreição de Cristo que trazem paz, alegria e esperança aos corações!

O cristão carrega consigo a esperança e a força ressuscitadora do Cristo que vive para sempre que, com seus sofrimentos, nos trouxe, com a saúde de Deus, a alegria de viver a vida sem fim!

A Covid-19 traz um sofrimento grande, mas transitório, passageiro.

A fé na ressurreição de Cristo traz uma alegria e uma felicidade eternas!

[1] João Paulo II, Salvici Doloris, 3.
[2] O. C.: 7
[3] Cor 4,17-18
[4] O. C.: 22
[5] O. C.: 23
[6] O. C.: 26
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