Artigo – Pais, não se desesperem! A bagunça é importante para o desenvolvimento das crianças

Quem já presenciou um armário de cozinha cheio de pote plástico e panelas sendo invadido por alguma criança pequena? Essa cena deve se repetir ainda mais vezes neste período de isolamento social, com a suspensão das aulas e a necessidade de toda a família permanecer em casa por conta da pandemia do coronavírus.

Para os pequenos, são tesouros escondidos dentro de casa e que são ressignificados e transformados em brincadeiras. As crianças são atraídas para esses espaços, e não é pelo “prazer” de espalhar os objetos e dar mais trabalho para a mãe e o pai, e sim pelo potencial e possibilidades que esses itens propõem.

Isso prova que as crianças não precisam de brinquedos caros para se divertir e aprender, é a interação que a criança desenvolve com esses objetos que os define como brinquedos.

Por exemplo, nos quatro Centros de Educação Infantil (CEIs), gerenciados pela Pró-Saúde na zona Leste da capital paulista, e que atendem crianças de zero a três anos, diversas atividades são desenvolvidas diariamente, utilizando materiais simples e do cotidiano, com o objetivo de desenvolver os sentidos e as habilidades dos pequenos.

Neste período em que as aulas estão suspensas, é essencial que as atividades e oportunidades de desenvolvimento continuem a fazer parte da rotina das crianças.

Enquanto o adulto observa apenas a bagunça causada por uma criança espalhando os potes plásticos pela casa, para a criança, esse momento significa experimentar outras possibilidades, criar hipóteses, conhecer os diferentes tamanhos, encaixes, cores e formatos.

E como as panelas e potes podem ajudar? Elas estimulam novas experiências e investigações envolvendo sons, habilidades motoras, como o encaixe da tampa na panela e a concentração.

Para Tizuko Morchida Kishimoto, pedagoga e uma das maiores especialistas sobre jogos e brincadeiras na educação infantil, o brincar é uma ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança; dá prazer, não exige como condição um produto final; relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz a criança no mundo imaginário.

Esse brincar livre e despretensioso, que muitas vezes tira os adultos do sério, estimula aspectos relevantes relacionados as emoções, criatividade, autonomia, autoestima e segurança que a criança arrasta para a vida, e nem sempre a importância desses momentos é reconhecida pelo adulto.

Portanto, não podemos subestimar o potencial de uma gaveta ou um armário de cozinha, isso porque nem falamos dos guarda-roupas, sapateiras e fruteiras, como aliados no processo de aprendizado e diversão da criançada.

Brincar é coisa séria! Mas, para a brincadeira rolar solta e com segurança, é necessário que o adulto tome alguns cuidados para deixar o espaço livre de riscos. Retirar os objetos que possam quebrar, que contenham peças pequenas ou que podem machucar, além de manter a higiene desses espaços, são algumas dicas que garantem uma diversão segura.

Paulo Freire diz: “Primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras.”, Descobrir o mundo ao seu redor, através das brincadeiras, é o trabalho da criança, então vale a pena relaxar e participar desses momentos junto com seus pequenos ou simplesmente contemplar o encantamento desse processo de descobertas e deixar sua casa ser transformada em um espaço brincante.

Tais Lopes é analista de Filantropia da Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, Pedagoga e Especialista em Educação em Direitos Humanos.

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