Casa de apoio a famílias do interior reforça cuidados de jovens e crianças no Hospital Oncológico Infantil

Quilômetros de estradas vencidos todos os dias. Travessias sobre águas calmas, ou sobre ondas agitadas e barrentas, como as da Baía de Marajó. Sob sol ou chuva, por noites, madrugadas ou à luz do dia, jornadas longe do lar são uma rotina constante para muitos que ainda partem para a capital, à procura de atendimentos em saúde que exigem cuidados mais especializados ou ainda não são acessíveis ao interior do Pará. E assim é também para paraenses que lutam contra o câncer – e especialmente quando esse desafio bate à porta de casa ainda na infância e na adolescência: 75% das cerca de 650 crianças e jovens atendidos hoje pelo Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo, instalado há um ano e meio no bairro de São Brás, em Belém, vêm do interior do Estado.

Essas são famílias que precisam de acolhimento e cuidados especiais. Estão longe de casa, por temporadas de tratamento que, em média, podem durar até quatro anos. E quando essa rotina não pede presença semanal ou diária no hospital, às vezes é preciso semanas a fio dentro de leitos, exigidas pelo regime de internação. Por isso mesmo, o apoio de abrigos e de serviços oferecidos por iniciativas assistenciais organizadas, em parceria com o hospital, são fundamentais para dar sequência ao atendimento.

São oito a dez horas de viagem dentro do barco que liga Belém a São Sebastião da Boa Vista, município do arquipélago do marajoara. E sempre é assim com os passageiros que zarpam para ligar os portos São Benedito, na capital, e o de Breguinha, além da baía do Marajó: noite na partida, luz da manhã na chegada. Na semana em que se celebrou a Páscoa, assim foi também para Alex dos Santos, de 28 anos, autônomo que trabalha com o comércio de verduras na pequena cidade de 25,5 mil habitantes, chamada pelos visitantes de ‘'Veneza do Marajó'’.

O verdureiro partiu para Belém para acompanhar a internação do primo de dez anos. O menino, A.S.S., começou seu tratamento contra o câncer no Oncológico Infantil há cinco meses. Atualmente, faz quimioterapia no hospital. Para estarem ao lado do menino nesse início de tratamento, desde então os familiares se revezam em viagens, cruzando a baía de Marajó.

Apoio

Essa é a primeira experiência de Alex como acompanhante em um hospital. Veio para ajudar o tio, pai do garoto, que precisou voltar à cidade da família. Não é a primeira vez, porém, que o verdureiro vive de perto uma internação na capital. Quando mais jovem, ele mesmo precisou permanecer em um hospital público de Belém, após sofrer um grave acidente em uma embarcação.

“São duas vivências completamente diferentes, de quando eu era garoto e, agora, acompanhando meu primo. Eu realmente não imaginava que iríamos encontrar a ajuda toda que tivemos aqui nesse hospital, mas tem. E isso é muito bom. Quando eu era menino, fiquei internado em Belém, e foi muito difícil para minha família. Não havia onde ficar”, lembra Alex.

Ao vir desta vez do Marajó, para enfrentar essa nova luta a ser vencida, a família Santos encontrou um abrigo decisivo, situado na rua Mariano, número 123, próximo ao final da avenida João Paulo II. Lá, no bairro Castanheira, está instalada mais uma casa de apoio entre as várias mantidas no Brasil pelo Instituto Ronaldo McDonald – entidade internacional de apoio assistencial a crianças em tratamento contra o câncer.

Nos blocos com 35 apartamentos da Casa Ronald McDonald de Belém, crianças e jovens do interior atendidos pelo Hospital Oncológico Infantil podem se instalar com seus acompanhantes, em suítes com cama, geladeira, sofá e áreas onde também se compartilham serviços de uso comum, como refeitório, cozinha e lavanderia. Refeições e lanches diários também são oferecidos gratuitamente pela entidade às famílias abrigadas.

Além disso, a casa de apoio também oferece reforço escolar, assistência social e acompanhamento de voluntários. No início de abril, o abrigo ganhou um reforço. A doação de um terreno vizinho, por meio da Prefeitura de Belém, permitirá, em breve, a ampliação das suas instalações. “É muito bom. Cada criança tem seu quarto, onde pode ficar com o parente. Tem sala de lazer com televisão e até uma área para o acompanhante cozinhar, se quiser”, ressalta o verdureiro Alex dos Santos.

A ajuda veio logo que a família Santos começou o tratamento de A.S.S. na capital. O serviço de atendimento em assistência social do Hospital Oncológico Infantil faz uma triagem de todas as famílias que precisam desse tipo de apoio e informa parentes sobre a possibilidade de auxílio. Deste modo, elas são encaminhadas pelo próprio Oncológico Infantil à representação do Instituto Ronald McDonald em Belém.

Assim, formalmente entram para o programa de assistência estabelecido em parceria com o hospital – que inclusive abriga uma sala para a sede da organização na capital paraense. Após a entrada no programa, não há prazo estabelecido para a ajuda. As famílias podem permanecer contando com a morada e os demais serviços enquanto perdurar o tratamento no Hospital Oncológico Infantil.

Além dos quartos e refeições oferecidos pela Casa Ronald, como é já conhecida pelas famílias atendidas, o Instituto Ronald McDonald ainda presta serviço diário de transporte entre o abrigo e o hospital, com auxílio de vans e micro-ônibus mantidos pela entidade. “Se não houvesse esse apoio, seria muito difícil para a gente. Muitas famílias, como a nossa, não têm recursos para se manter aqui na cidade, nem parentes para aqui ajudarem. Seria muito difícil mesmo até continuar o tratamento de meu primo. É impossível pensar em sustentar uma casa em Belém, só para isso”, pondera Santos, emocionado. “Esse é um projeto muito bom. E, por tudo isso, acho mesmo que, primeiramente, foi Deus quem enviou este abrigo. Depois os humanos, aqui na Terra, abriram essa casa para ajudar a gente”.

Parceria pela vida

“A Casa Ronald McDonald oferece instalações com qualidade e conforto. É uma ajuda grande para essas famílias atendidas pelo Hospital Oncológico em Belém. Pouquíssimas têm condições de se instalar na capital. E lá, na casa de apoio, até ao menor sinal de qualquer problema de saúde, as crianças são colocadas no carro do instituto e trazidas imediatamente ao hospital”, avalia Alba Muniz, diretora-geral do hospital.

A diretora ressalta que o grande impacto dessa ajuda está justamente em bons avanços nos tratamentos. “O Oncológico Infantil não conseguiria os resultados que tem hoje se também não tivesse um parceiro como esse, com esse nível de afinidade, que consegue, inclusive, garantir a continuidade dos mesmos cuidados com a alimentação, por exemplo, que essas crianças e jovens têm aqui dentro do hospital”, diz Alba.

Alba lembra que a casa de apoio, que já soma cinco anos de funcionamento em Belém, nasceu ainda quando foi anunciada a ampliação da ala pediátrica do Hospital Ophir Loyola, que também é referência em tratamento de câncer na rede pública estadual. Dessa mesma semente surgiu o projeto para a construção do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo – inaugurado em outubro de 2015, e desde então mantido sob gestão da Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, sob contrato firmado com a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa).

“Conheço esta história da atenção oncológica para crianças em Belém desde 2002. O Instituto Ronald McDonald já era parceiro do Hospital Ophir Loyola, antes da construção da nossa casa de apoio na capital. Vi o Oncológico Infantil em construção e, hoje, ele está pronto. E a gente fica feliz de ver este prédio público funcionando desta maneira e em verificar o quanto já foi feito pela atenção oncológica de crianças não só em Belém, mas no Estado do Pará. E principalmente aqui, neste hospital, pela qualidade do atendimento, pela paixão destes profissionais, que fazem de seu trabalho um prazer de atuar por essas crianças”, pontuou, no início de abril, em Belém, o superintendente do Instituto Ronald McDonald no Brasil, Francisco Neves.

Carioca, Neves foi o principal responsável por mobilizar esforços para a vinda da entidade para o País. Conheceu a iniciativa de perto, nos Estados Unidos, quando, há tempos atrás, viajou em busca de tratamento, acompanhando a luta contra o câncer de seu próprio filho. Cumprindo recentemente agenda em Belém, ele fez questão de visitar todas as instalações do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo, em São Brás. Tinha motivos: o parceiro paraense do Instituto Ronald McDonald é atualmente o maior hospital oncológico voltado ao público jovem e infantil em todo o Brasil, em volume de serviços.

“Ficamos muito satisfeitos com o que vimos aqui, principalmente porque se trata de cuidados com crianças, feitos com excelência. Oferecer tratamento humanizado, como o Oncológico faz em Belém, permite que elas sintam menos os impactos e estigmas que andam ao lado da doença, e as deixa muito mais preparadas para um futuro onde precisam estar incluídas. E, além do tratar, do acolher e de pensar nesse futuro, o Oncológico cumpre um importante papel pedagógico de resgate de cidadania e valorização, como seres humanos, de crianças, jovens e de seus pais. Nosso sentimento é de muita felicidade, e de dizer, realmente: muito obrigado”, pontuou Neves.

Parcerias afinadas, como as que firmaram o Hospital Oncológico Infantil e o Instituto Ronald McDonald, são fundamentais para que o atendimento especializado e o tratamento oncológico sejam acessados por cada vez mais paraenses de todo o Estado. Essas são iniciativas decisivas para histórias de superação e luta pela vida, como as que estão sendo travadas nesse momento por centenas de famílias, entre elas a dos Santos, do arquipélago do Marajó.

E enquanto essas famílias encontram abrigo e cuidados de mãos zelosas – essa força crucial em suas lutas contra o câncer -, é assim que os Santos também desejam logo voltar para seus lares, sob o céu do triunfo e ao assento morno da saúde, em terra firme marajoara: se foram noites escuras essas as das partidas, sobre as águas turvas e revoltas, luz clara do dia será essa a da esperada chegada final ao porto de casa. E lá, um barquinho feliz atracado já poderá balançar, às marolas, trazendo inscrito no casco o nome: ‘Vitória’.

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