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Voluntariado leva conforto e esperança a pacientes de hospitais públicos no Pará

30/08/2017

Voluntariado leva conforto e esperança a pacientes de hospitais públicos no Pará

Há quase cinco anos, a estudante Evelyn Nascimento teve vontade de desistir do voluntariado na primeira dificuldade que apareceu em seu caminho. Abalada com a morte de uma criança com câncer com quem a estudante passou a ter contato, Evelyn quase deixou de ser voluntária. “Fiquei um período triste, não entendia o porquê disso (a morte). A vontade de desistir era inevitável, porque a gente é egoísta e quer evitar o próprio sofrimento, mas quem sofre são as crianças”, contou.

Passado o período de indecisão, Evelyn se tornou uma das pessoas mais ativas no cuidado a crianças e adolescentes com câncer. A vontade de ajudar foi maior que o receio da dor causada pela partida de pacientes. Desde o início das atividades do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (HOIOL), em Belém (PA), ela e outros integrantes do Instituto Áster são presença assídua na unidade. “Entendi que minha missão na terra é ajudar as crianças. Se eu tivesse desistido, muitas não seriam ajudadas porque o grupo não existiria”, refletiu.

Atitudes como a de Evelyn, que decidiu continuar o trabalho voluntário, são lembradas no decorrer desta semana, quando comemora-se o Dia Nacional do Voluntariado, 28/8. A semana homenageia o trabalho de quem se propõe a reservar um pouco de seu tempo em benefício de uma causa social o humanitária.

Na Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, gestora dos hospitais Oncológico Infantil Octávio Lobo (HOIOL), Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), Público Estadual Galileu (HPEG) e Regional do Sudeste do Pará (HRSP) sob contrato de gestão com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), as ações voluntárias são reconhecidas por meio do Programa de Voluntariado.

O programa possui diretrizes específicas baseadas na Lei do Voluntariado, de 18/2/1998, para assegurar a atuação voluntária nas unidades geridas pela entidade e proporcionar valorização, além de crescimento pessoal, aos participante e usuários. Atualmente, cerca de 239 voluntários estão inscritos no programa nos quatro hospitais.

O grupo Áster atua em diversas frentes no Oncológico Infantil. Uma das tarefas é oferecer conforto espiritual aos pacientes e seus acompanhantes. Aos domingos o grupo alterna a realização de missas e cultos na unidade.  Os momentos de fé são, na visão de Evelyn, de extrema importância. “O momento de luta contra o câncer é difícil. Acreditamos que o apoio emocional e espiritual é mais importante que o apoio material”, explicou. Além de confortar as famílias e pacientes nas atividades religiosas, os voluntários do Áster fazem a doação contínua de itens de higiene pessoal para os usuários.

Evelyn e outros voluntários também são engajados no auxílio aos pacientes fora do hospital. O deslocamento de muitos deles no trajeto de casa para a unidade é feito por meio do projeto “Carona Amiga”. Nesta ação, as crianças são levadas de carro até a unidade sempre que necessário para o tratamento oncológico. “A ideia é que a gente amenize o trajeto de casa até o hospital, já que as crianças que fazem tratamento oncológico têm a imunidade afetada. Ter contato com muitas pessoas no transporte público pode ser prejudicial a eles”, contou Evelyn.

No Oncológico  Infantil a atuação dos voluntários também leva conhecimento aos pacientes. Um grupo de 20 alunos voluntários da faculdade de Biblioteconomia da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolve o projeto “Turma da Leitura”. A iniciativa é um projeto de extensão acadêmica que promove a biblioterapia para as crianças e adolescentes da unidade.

Durante as atividades, os voluntários coordenados pela professora Franciele Marques Redigolo trabalham a leitura como forma de criar momentos lúdicos para os pacientes, incentivam a prática da leitura e colocam em prática os efeitos terapêuticos deste ato. 

O voluntariado sempre esteve presente na vida da professora. Para ela, a “Turma da Leitura” é uma oportunidade de continuar exercendo atividades voltadas para o auxílio do próximo. “Além de atividade de extensão, o projeto possibilita a interação dos alunos com os pacientes hospitalizados e familiares em momentos prazerosos de leitura terapêutica”, disse. Desta forma, de acordo com Franciele, o projeto contribui para o bem estar e aprendizagem dos pacientes do Oncológico Infantil.

Para quem trabalha no Oncológico Infantil, a atuação dos voluntários é fundamental para reforçar o tratamento humanizado que a unidade oferece. De acordo com a coordenadora de Humanização do hospital, Paula Viana, o voluntariado ajuda a completar o cuidado e atenção que os pacientes recebem. “Os voluntários têm esse papel de trazer solidariedade e calor humano”, disse.

Atualmente a unidade tem um grupo de 84 voluntários. Todos passaram por oficinas de formação, além de terem sido submetidos a entrevistas e treinamentos. “Nossos voluntários atuam de segunda a segunda. Temos grupos de música, de palhaços, além de outros parceiros como os Anjos da Enfermagem, uma parceria com a Universidade do Estado do Pará (UEPA), e da turma da leitura, parceria com a UFPA”, explicou.

Somam-se a eles, os chamados voluntários independentes que desenvolvem ações como as do projeto “Anjos da Beleza”, focadas em levar cuidado estético e elevar a autoestima de pacientes e acompanhantes. Paula também cita os grupos articuladores na captação de recursos, como o Áster. “São aquelas pessoas que trazem outras que têm capacidade de nos ajudar”, completou.

Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência

Na maior unidade de saúde pública de média e alta complexidades do Pará, os voluntários do programa da Pró-Saúde também são uma peça importante no tratamento humanizado oferecido às vítimas de trauma e queimados, especialidades do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua (PA).

As visitas frequentes dos grupos já são esperadas pelos pacientes. De profissionais de saúde, passando por religiosos e palhaços, os grupos de voluntário levam alegria e esperança de dias melhores para quem está em recuperação.

Uma destas voluntárias é a estudante de Logística, Jusley Oliveira. Integrante do grupo “Liga da Alegria”, formado por jovens cristãos do conjunto Cidade Nova, também em Ananindeua, a jovem encontrou na música a forma de contribuir com os pacientes da unidade. A estudante disse que sempre se sentiu inclinada a ajudar ao próximo. “Sempre fui cristã e desde que me entendo por gente estou inclinada ao voluntariado”, contou.

Antes do HMUE, a jovem desenvolveu trabalhos na ilha do Combu, na região das ilhas da capital paraense, e no Estado do Amapá. As experiências deram a oportunidade para a estudante de mudar sua maneira de pensar. “Você vê o rosto das crianças e isso vai mudando sua maneira de ver a vida. Nosso próximo está sempre passando necessidade e nem sempre a gente ajuda”, refletiu.

Jusley e seu violão costumam alegrar os pacientes do HMUE às sextas. Para ela,  a música pode ajudar a mudar a atmosfera do ambiente hospitalar e também levar evangelização. “No repertório tento mesclar as músicas do gênero gospel, infantis e até a famosa e boa MPB. Em troca de tudo isso, o que é mais legal é o sorriso que recebemos deles, o olhar de gratidão, um obrigada, um abraço e vale muito, muito a pena”, sorriu.

Os pacientes do HMUE também costumam receber a visita de grupos como os 'Palhaços Curativos', 'Projeto Sorria', 'Coletivo Clown' e a 'Liga da Alegria'. Há também visitas semanais de grupos religiosos das igrejas católica e evangélica para levar mensagens de fé aos usuários da unidade. Juntos, os grupos somam cerca de 55 voluntários.

A coordenadora de Projetos Sociais, Roberta Cardins, destacou o ponto forte de ter voluntários tão diferentes. “Há grupos mais antigos que atuam aqui como os religiosos, que levam uma palavra de conforto espiritual aos pacientes. Sabemos que existem pacientes que não tem quem os visite. Os voluntários mostram que existem pessoas que se importam com estes pacientes”, disse. A colaboradora também ressaltou a alegria que os grupos que fazem palhaçaria trazem aos usuários. “O riso melhora a vida. Imagina isso para quem está em um leito de hospital?”, apontou.

Hospital Galileu

O trabalho voluntário também é de grande valia para os pacientes internados no Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), em Belém. Com o apoio deles, os usuários recebem atividades de entretenimento e música. A unidade conta com cerca de 50 voluntários.

Em média duas vezes por mês, geralmente aos sábados, esses grupos de pessoas abrem mão do seu tempo livre para contribuir com o bem-estar de quem se encontra em um leito do hospital.

Os grupos “Coletivo Clown” e “Enfermágicos” são alguns dos que fazem parte dessa história. Além deles, grupos de música gospel, como Wallace Lino e Geração Reservada, participam constantemente das ações da unidade.

Para o estudante de Direto, Raidol Torres Saldanha, de 21 anos, os caminhos que o levaram a se tornar voluntário, foram os mesmos que o fizeram optar pela profissão de advogado: a busca pela igualdade de direitos. “É muito bom a gente conseguir usar o nosso grupo como mecanismo que garante direitos humanos, que garante acesso à cultura, ao cuidado, e a troca de afeto”, destacou.

Raidol é voluntariado há cerca de dois anos do Coletivo Clown, grupo que surgiu com o objetivo de levar entretenimento, música, arte, e muitos risos a quem mais precisasse. E eles conseguiram. “Lembro de visitar um menino de 14 anos que tinha tido a perna amputada, e naquele dia, enquanto nos apresentávamos, ele deu um sorriso. A enfermeira nos contou depois que aquela foi a primeira vez que ele sorriu desde que deu entrada no hospital. Isso é recompensador”, relembrou.

Hospital Regional do Sudeste do Pará

O Hospital Regional do Sudeste do Pará (HRSP), em Marabá (PA), conta com cerca de 50 pessoas no Programa de Voluntariado. Entre elas, o servidor público Antônio Lacerda Veloso.

Mais novo voluntário da entidade, com pouco mais de 21 dias, Antônio ficou emocionado com as primeiras experiências no hospital. 'Fomos a um quarto em que havia um rapaz vítima de acidente de trânsito. Aí teve um momento em que a mãe pediu que ele dissesse amém. Ele falou. Não ouvimos, mas lemos o lábio dele. Depois ele acenou um legal, com o dedo, e deu tchau para nós. Então, a mãe dele entrou em prantos. Foi aí que eu soube que, até então, ele não tinha reagido. Foi emocionante e muito bom para mim também, porque saí diferente de lá', lembrou o voluntário.

A coordenadora de Humanização do HRSP, Caroline Nogueira, disse que o trabalho do voluntariado contribui para elevar a autoestima dos usuários e torná-los mais cooperativos no tratamento e, ainda, amenizar os impactos psicológicos da internação.

No HRSP, por exemplo, os grupos se dividem em risoterapia, musicoterapia, embelezamento, artesanato e ações de saúde e culturais. Mas outras áreas podem ser desenvolvidas, dependendo da aptidão do voluntário.  

A doação de amor ao próximo tem funcionando como uma terapia na luta contra uma doença nos hospitais que gerenciamos. A fala é do diretor Operacional da Pró-Saúde no Pará, Paulo Czrnhak. Para ele, o engajamento do paciente com o tratamento só ocorre quando ele sente-se cuidado e seguro, e isso, ocorre quando se faz saúde com amor. 'Os voluntários dão vida aos nossos hospitais, transformando o ambiente em um lugar de carinho e de laços efetivos, e o bem gerado, é incalculável', explicou.

 

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