FEVEREIRO/MARÇO DE 2002
NÚMERO 35
ANO 3
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ENTREVISTA
 
Gunter Kreinberg (*)

Bruno Hoffmann

Desenvolvimento controlado

Kreinberg: Modernização

Em 105 anos de existência, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na cidade de São Paulo, tornou-se uma referência obrigatória no Brasil e na América Latina em tratamento médico e organização empresarial. Fundado em 1897 por um grupo de imigrantes de língua alemã, formado por austríacos, alemães e suíços, o Oswaldo Cruz tem 51 mil metros quadrados de área construída, cerca de 1.000 funcionários e 170 leitos. Além disso, possui uma localização privilegiada: a menos de 200 metros da Avenida Paulista, a mais importante da cidade.

"Fomos uma das primeiras instituições que encarou hospital como uma empresa."

Reconhecido, mas não tão badalado quanto outras instituições de saúde, o objetivo da instituição é multiplicar seus serviços. Para isso, a administração do hospital se norteia por um desenvolvimento gradual e controlado. Essa filosofia tem um motivo: para o hospital, o principal desafio é ampliar os serviços sem perder a qualidade. O diretor administrativo do Oswaldo Cruz, Gunter Kreinberg, está desde 1993 no cargo. Nascido numa pequena cidade próxima a Berlin e há mais de 40 anos no Brasil, fala (praticamente sem sotaque) sobre o funcionamento, a administração e o futuro da instituição que ele admi-nistra e vem ajudando a moder-nizar.

Muitos consideram o Hospital Alemão Oswaldo Cruz o melhor de São Paulo e um dos melhores da América Latina, mesmo sem ter a fama de instituições como o Albert Einstein ou Sírio Libanês. O sr. acha que a opinião pública tem idéia dessa qualidade?

Eu não acho que o Oswaldo Cruz seja o melhor. Cada um dos três tem seus pontos fortes. Os outros dois hospitais fazem mais marketing, talvez seja por isso que a opinião pública tenha uma visão melhor deles. Antes, nós não podíamos fazer marketing porque nosso hospital estava sempre cheio. Consi-dero antiético fazer propaganda nessa situação, pois isso atrairia mais pacientes e a fila aumentaria. Agora, a situação mudou. Temos um novo prédio, com mais leitos disponíveis. Então, vamos fazer um pouco de publicidade.

O que, a seu ver, diferencia o Oswaldo Cruz de outros hospitais?

Nós fomos um dos primeiros que encaramos o hospital como uma empresa. Nós controlamos o centro de custos. Estamos organizando bem os nossos custos para adotarmos um preço razoável. Vemos sempre em qual parte estamos deficitários ou em qual estamos ganhando dinheiro.

Novo edifício: Projeto é consolidar os serviços.

A administração do hospital ainda é totalmente baseada nos conceitos de administração alemã, origem dos fundadores?

No início, tínhamos forte influência alemã. Atualmente, porém, somos um hospital brasileiro. Praticamen-te todos os médicos e pacientes são brasileiros. Da Alemanha, nos restou o nome e o nosso conselho.

 

A administração é profissionalizada, ou seja, está sob a responsabilidade de administradores formados?

Eu sou administrador e nos mais de 40 anos que estou no Brasil trabalhei como administrador em todas as empresas pelas quais passei. Eu entrei no Oswaldo Cruz para ajudá-lo, para que melhorasse sua situação de empresa.

O hospital é bastante conhecido pela atenção e inovação dos serviços de enfermagem. Como é feito esse trabalho?

Nós estamos investindo muito na nossa enfermagem. Temos um bom nível de enfermeiras diplomadas. Se compararmos com outras instituições, nosso nível de enfermeiras universitárias é muito superior.

"Com as obras de ampliação ficaremos maior, mas não temos a pretensãode concorrer com os grandes hospitais."

Como estão as obras de ampliação do Oswaldo Cruz?

Terminamos o novo prédio. Conseguimos com ele uma maior capacidade em vários setores, como o centro cirúrgico, as internações, a UTI e novos setores que estão incluídos no novo prédio. Ficaremos maior, mas não temos a pretensão de concorrer com os grandes hospitais. Acredito que deve ser uma unidade compacta, com crescimento controlado. Não pode perder a qualidade.

No papel de administrador, como o sr. analisa a política de saúde no País?

O sistema hospitalar é um sistema privado. Dessa forma, acredito que deva haver liberdade de mercado e livre concorrência. O Oswaldo Cruz, assim como muitos hospitais, é uma instituição privada sem fins lucrativos. Acho até correto que o governo dê as regras quanto à política hospitalar, mas há o risco de engessar o desenvolvimento desse setor. Os equipamentos de ponta são muito caros e se não tivermos superávit não há como nos equipararmos aos grandes centros médicos mundiais. Pretendemos crescer, mas insisto que sem termos superávit não há como adquirirmos equipamentos de última geração.

Quais os projetos do Oswaldo Cruz para este e os próximos anos?

Principalmente, consolidar o que já construímos até agora. Falta ainda construirmos o prédio de logística. Nosso objetivo é baratear os custos. Para isso, pretendemos modernizar o Oswaldo Cruz. Pretendemos oferecer um atendimento mais rápido e reduzir nossos custos. Para dar um exemplo simples, ao invés de descarregarmos um caminhão de medicamentos em duas horas, se fizermos isso em 15 minutos, abaixaríamos consideravelmente nossos custos.

Raios-x

Hospital Alemão Oswaldo Cruz

  • Localização: São Paulo _ SP.
  • Fundação: 1897.
  • Área construída: 51 mil m2
  • Total de funcionários: 1000.
  • Total de leitos: 170.
  • Serviços: possui centros de diagnóstico por imagem, de epilepsia, hemodiálise, quimioterapia e reprodução humana.

Já que o hospital pretende abaixar os custos, o sr. pensa em demitir funcionários?

Nossa meta é racionalizar os custos e ganhar em produtividade. Neste momento, em que pretendemos crescer mais, o número de funcionários, que hoje é superior à nossa necessidade, nos será muito útil no futuro. Não vamos demitir hoje para contratar amanhã. Esses funcionários nos serão muito úteis, pois já estão dentro dos parâmetros que a empresa considera razoáveis. Estão devidamente treinados. Pretendemos crescer sem demissões. Isso é possível pois estamos realizando esse crescimento passo-a-passo. Há cerca de seis anos estamos nos preparando para nosso atual crescimento. Houve obras, adaptações e reformas para que hoje pudéssemos multiplicar nossos serviços.

O Oswaldo Cruz está implantando o sistema de telemedicina. Quais as vantagens?

Como você disse, estamos em fase de implantação. A telemedicina é mais uma ferramenta para o profissional da área médica. O médico, à distância e 24 horas por dia, pode verificar uma série de dados sobre o paciente. Por exemplo, pode verificar, de sua casa, dados como o histórico do paciente, evolução, monitoração cardíaca, pressão introcraniana, pressão arterial, entre outros detalhes. Além disso, é possível receber imagens médicas, como ultra-sonografias e tomografias. Temos o que há de mais moderno. Isso facilita o trabalho do médico. Normalmente, ele precisaria estar ao lado do paciente para ter esses dados. Com a telemedicina, isso muda. Consideramos mui-to importante essa facilidade, ainda mais numa cidade como São Paulo, na qual se locomover rapidamente de um ponto a outro não é uma missão muito fácil. O sistema será disponibilizado também em intranet e internet, com imagens em alta velocidade e em alta definição. Ou seja, um exame no leito pode ser visto no nosso auditório ou em qualquer parte do mundo em tempo real. Esse avanço pode vir a ser peça importante para o treinamento de profissionais de medicina à distância. Considero importante ratificar que isso é mais uma ferramenta para o profissional de medicina, pois o ideal é sempre o médico estar ao lado do paciente para obter esses dados.