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CRÔNICAS
MÉDICAS
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Stanley
Baaptista de Oliveira(*)
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Histórias de um médico do interior
Lombalgia
Ao levantar-me da cama, pela manhã, senti a fisgada nas costas, embaixo, à direita, na região lombar, junto da coluna vertebral. Mau jeito na cama, pensei. A dor permaneceu por todo o dia, enjoada, piorando quando me assentava. Tomei um Beserol, à noite, e pensei que tudo estaria bem no dia seguinte. No dia seguinte, estava pior. Doía quando eu andava, quando assentava ou levantava.
_ Caso para Dorflex, falei, já preocupado em ter que ficar sem tomar cerveja, em pleno verão, enquanto estivesse usando o remédio. A dor continuava, espalhava mais para o lado direito, piorava aos movimentos da coluna, uma dor em queimação, constante, enjoada, irritante. Verdadeira dor de dentes nas costas, como dizia aquele general-presidente. Fiquei mal-humorado, com raiva de tudo e de todos.
_ Dói muito?, perguntou minha mulher, solícita, com um carinho. _ Não. Dor moderada, igual dor de parto. Ou, então, respondia: Nada, não, uma espécie de ferro em brasa nas costas. Ou: Não, só dói quando eu respiro. E dava outras respostas espirituosas desse jaez para me descontrair e irritar a perguntadora.
_ Isso é caso para japonês, aconse-lhou o amigo, já estendendo o endereço da clínica oriental. Procure o professor Nakamura, lá no bairro da Floresta.
Procurei o professor Nakamura, um japonês sorridente, simpático, cheio de gestos, que me fez uma porção de perguntas, apertou a mão nos meus pontos dolorosos e gritou: _ Fisioterapia primeiro! E me em-purrou para um salão cheio de camas de tração, forcas e outros instrumentos de tortura. _ Tração lombar, gritou para um auxiliar. Aqui tudo é no grito, pensei, meio assustado.
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Esse é um caso para o Nakamura, Oyama, Miamoto, Takahashi... |
Amarraram-me numa mesa acolchoada, com o corpo pendurado nela. Quando a máquina entrou em funcionamento, as correias me puxaram para baixo, com força, até que o motor deu um estalo e tudo voltou à posição inicial para então recomeçar o ciclo. Depois de quinze minutos, fui amarrado à cama de tração: pás amarradas numa plataforma, ombros presos noutra plataforma superior, ligou-se o motorzinho e sou puxado, metade para baixo e metade do corpo para cima. Ou vai ou racha.
Saí bambo da cama de tração. Fui lançado às mãos do professor Oya-ma.Manipulação. Iaaaahhhhh!!!, gritou o japonês. E me deitou num colchão de couro, deu golpes na coluna, levantou-me uma perna e deu um violento arranco, depois o mesmo na outra perna e mais arrancos no pescoço. _ Quando estalar, cura, gritou o japonês. Estalou?
_ Não, respondi desolado, o que também decepcionou o professor Oyama.
_ Enton, agora acupuntura, gritou. E lá fui eu para a sessão de acupuntura nas mãos do competente e simpático professor Na-kamura. Fiquei deitado de barriga para baixo, en-quanto o professor Naka-mura apalpava a região dolorida e enfiou umas agu-lhas fininhas nos pontos adequados. Depois, ligou as agulhas a uns fios, ligou uma maquininha e comecei a levar choques nas costas.
_ Agora só falta o pau-de-arara, falei.
_ Hein?, perguntou o japonês, sem entender a piada.
Meia hora depois, ele voltou. _ Enton, melhorou? Fiz uma careta, dobrei o pescoço para a frente e lamentei dizer que continuava doendo.
Fui deitado de novo na cama, novas agulhas enfiadas nas costas. Desta vez não levei choques: o japonês encostou um ferro quente nas agulhas que foram queimando carne adentro. Agüentei firme e gri-tei que já estava curado, nada mais sentia. Paguei a fatura e caí fora, com lombalgia e tudo.
Tem um japonês fantástico ali na esquina, o Miamoto, ensinou outro amigo, dias depois. Tentei o japonês da esquina, um baixinho de cabelos curtos, espetados, que ouviu rapidamente minhas queixas e me mandou deitar de bruços. Ia Tem um japonês fantástico ali na esquina, o Miamoto, ensinou outro amigo, dias depois. Tentei o japonês da esquina, um baixinho de cabelos curtos, espetados, que ouviu rapidamente minhas queixas e me mandou deitar de bruços. Ia começar a sessão de acupuntura. Espetou as agulhinhas, depois colocou uma espécie de incenso nas agulhas e começou a riscar fósforos que queimavam o incenso que, por sua vez, esquentava as agulhinhas, me queimando as carnes. Como eu era o único cliente, o japonês ficou o tempo todo ao meu lado, contando casos. Contei-lhe sobre minha sessão anterior de acupuntura e manipulações. O sofrimento sem nenhuma melhora, as trações, os arrancos nas mãos do professor Oyama. _ Pois é, da outra vez que precisei, há cinco anos, fui atendido pelo professor Hiroshi, que é muito bom em manipulação. Mas, ele se mudou para o Japão.
Ah, sim. O Hiroshi veio comigo do Japão para Brasil, né?, junto com o Nakamura, nós três, né?, e mais o Oyama. Só que o Oyama era o nosso cozinheiro, falou o japonês, que começou a rir, mostrando os dentes compridos. Não achei graça nenhuma em ter sido tratado pelo cozinheiro da companhia.
Saí dali com alguma melhora mas, à noite, a dor voltou com maior intensidade, verdadeira brasa me que-imando as entranhas, sem encontrar qualquer posição de alívio. O cunha-do me orientou: você está indo nos japoneses errados. Procure o Takahashi, na Tomé de Souza.
No
dia seguinte, bem cedo, procurei o professor Takahashi, um japonês á
velho, mas bem conservado, cabelos brancos, lisos, que não respondeu
ao meu bom dia. Fui dizendo o que sentia, enquanto, obedecendo ordem, tirava
a roupa, fica só de cueca e me deitava no chão, sobre um colchãozinho.
O japonês, des-calço, com o calcanhar pisou em toda minha coluna
vertebral. Depois falou: você não tem nada na coluna, né?.
E se minha coluna estivesse podre? O japonês a teria quebrado e triturado
com aquele calcanhar duro e roliço. Xinguei a mãe dele, em silêncio,
enquanto me deitava so-bre uma cama. Pensei que o Takahashi fosse começar
uma competente sessão de manipulação, único recurso
que acho eficiente nesses casos, mas não, ele iniciou foi uma violenta
sessão de massagens. Foi até bom, me senti melhor. O japonês
me disse que a massagem estava desembolando um nervo. Não sei qual nervo
foi capaz de embolar naquela região. À noite, mais uma vez, a
dor voltou com toda a força. Comecei a usar Feldene, deixando de lado,
mais uma vez, as cervejas geladas daquele verão. No dia seguinte, todo
torto, fui visitar um amigo que sofrera um acidente de carro. Conversa vai,
conversa vem, contei sobre a minha lombalgia. _ Ah, você tem que ir no
meu japonês. É um espetáculo, ao mesmo tempo em que abria
a agenda e me dava o endereço do eu japonês-maravilha.
(*) Escritor e médico.
N.E.: Em 1998, cientistas da Univer-sidade da Califórnia comprovaram
que os pontos da acupuntura estão mesmo ligados, através
do cérebro, a importantes órgãos internos e funções
do corpo. A prática é aceita pela Organização Mundial
da Saúde (OMS) e Conselho Federal de Medicina. No Brasil existem cerca
de 5.000 médicos acupunturistas, segundo o médico Ysao Yamamura,
chefe do Departamento de Acupuntura da Universidade Federal de São Paulo.