FEVEREIRO/MARÇO DE 2002
NÚMERO 35
ANO 3
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QUALIDADE
 
Handerson J. Dourado Leite (*)

Motivos para implantar um sistema de gestão da qualidade em instituições

O momento histórico atual caracteriza-se pela aceleração dos processos tecnológicos, através da automação dos meios produtivos, do avanço das comunicações, da informática e das profundas e constantes mudanças políticas, econômicas e sociais, tornando o atual contexto altamente dinâmico e instável. Tais fenômenos refletem-se sobre as organizações através das pressões competitivas e a conseqüente necessidade de ajustarem os seus sistemas administrativos para atenderem às novas exigências dos consumidores. Assim, aspectos referentes à qualidade, estratégia, parcerias e gerenciamento de tecnologia estão cada vez mais presentes na rotina da administração contemporânea e a implantação de sistemas de ges-tão da qualidade tem ajudado as empresas a enfrentarem os desafios impostos pela nova dinâmica da sociedade.

No âmbito da Administração em Saúde, apesar dos diversos mitos existentes, o contexto não é diferente, muito embora pesquisas realizadas no Brasil, no final dos anos 90, demonstrem que ainda é muito pequeno o número de estabelecimentos de saúde que tenham implementado ações com o objetivo de adotarem a gestão da qualidade. A idéia de que "saúde não tem preço" é correta, entretanto quem arcará com os custos de tratamentos que requerem, cada vez mais, uso de equipamentos que agregam tecnologia de ponta? Afirmar que o avanço nas ciências médicas prolongou a sobrevida humana também é insofismável, mas quem convencerá uma criança feliz por ter recebido o seu "diplominha de coragem", após realizar a coleta de sangue num determinado laboratório, a freqüentar outro?

Das afirmações e questionamentos acima, aparentemente simplistas, é possível observar diversos aspectos que apontam para a necessidade de aplicar um sistema de gestão da qualidade nas instituições de saúde. É possível que a pouca importância com os custos da saúde decorra das características quase artesanais com que era prestado o serviço e da si-tuação anterior de financiamento do sistema, seja através de maiores verbas governamentais, seja através das heranças recebidas pelas entidades filantrópicas. A preocupação com os custos associados aos serviços de saúde, portanto, é relativamente recente e foi acentuada pelo aumento dos gastos gerados pela incorporação de tecnologia e pela mudança de perfil dos agentes financiadores do sistema.

Ao agregar uma grande quantidade de equipamentos aos serviços de saúde, por exemplo, além do investimento inicial com aquisição e reforma, necessita-se contabilizar os custos com a sua manutenção. Entretanto, os gastos podem ser minorados se, utilizando de pessoal especializado, existir um sistema de gerenciamento da tecnologia insta-lada, calcado em indicadores, acompanhamento e avaliação constantes. A inexistência desse tipo de ação é responsável pelos diversos relatos de aquisições mal feitas, uso de tecnologia inadequada, inoperância, funcionamento anormal, quebras constantes e redução da vida útil dos equipamentos e tem como resultado, além do comprometimento da qualidade dos procedimentos e do risco de vida dos pacientes e profissionais de saúde, muito dinheiro desperdiçado.

Hoje, a mudança de perfil dos agentes financiadores da saúde, também irá requerer das institui-ções que atuam na área uma ação gerencial focada na qualidade. Estima-se que cerca de 70% do financiamento dos serviços de saúde no País seja feito pelo SUS e outros 30%, aproximadamente, por planos de saúde suplementar[1]. Assim, os dois grandes compradores, por motivos diferentes, atuam sobre os profissionais e instituições de saúde exigindo eficácia e eficiência, pois necessitam reduzir custos e responder positivamente às demandas dos clientes e da so-ciedade.

A criança e seu "diplominha" também irão nos remeter a duas considerações relevantes. A primeira delas é avaliar que, se existe uma competência técnica mais ou menos equivalente, necessita-se de um diferencial para atrair e manter os clientes, principalmente quando se sabe que a sociedade está mais exigente e tende a pedir mais. Não se quer com isso que as organizações de saúde percam o seu viés social, mas que entendam a necessidade de buscar os mecanismos de sobrevivência num mercado de concorrência acirrada. A outra é explicitar que é possível implantar programas de Garantia de Qualidade respeitando-se as especificidades da área de saúde.

Partindo da abordagem pontual desses aspectos que permeiam o dia a dia do administrador da saúde é possível realizar uma comparação entre as suas necessidades geren-ciais e os oito princípios de gestão da qualidade estabelecidos pelas normas NBR/ISO 9000:2000, com o objetivo de demonstrar que ambos são compatíveis. O foco no cliente é fundamental para garantir a sobrevivência. É da sua satisfação técnica e de atendimento que virá a dife-rença competitiva da organização.

Liderança que agregue a organização em torno da estratégia estabelecida permitirá o avanço em função dos rumos traçados. O envolvimento das pessoas é fundamental para garantir a motivação que resultará no uso de cada habilidade indivi-dual em benefício da organização. A abordagem de processo permitirá ao administrador gerenciar atividades e recursos de forma mais eficiente. A visão nítida de onde se iniciam e terminam os processos possibilitará eliminar atividades que não agregam valor e definir melhor as responsabilidades.

A abordagem sistêmica para a gestão permite identificar a inter-relação entre os processos e o entendimento da organização como um todo. Dessa forma existe a possibilidade de definir claramente, especialmente nos grandes hospitais, as linhas demarcatórias entre o pessoal administrativo e os médicos, uma das especificidades do setor de saúde, que mal definidas geram duplicidade de autoridade.

A melhoria contínua é a necessidade de aperfeiçoamento constante para fazer frente aos novos desafios e demandas dos clientes. Envolve a necessidade de acompanhamento e avaliação constante e de busca da superação.A tomada de decisão a partir de fatos e dados exigirá a montagem de uma estrutura de gerenciamento baseado em dados e informações que suportará a organização nas decisões mais importantes, além de supri-la com indicadores que demonstrem a eficácia e eficiência dos seus processos.

Finalmente, o estabelecimento de benefícios mútuos nas relações com os fornecedores, livres dos conflitos de interesses, ajudam a instituição a negociar com a liberdade de demonstrar que as aquisições de produtos com qualidade são uma excelente vitrine para estes e agregam valor em toda a cadeia produtiva.

Como pode ser observado, a implementação de um sistema de gestão da qualidade pode ajudar as instituições de saúde a enfrentarem os novos desafios impostos pela atual dinâmica social. Tal ajuda será possível a partir da estruturação de um sistema gerencial sistêmico/processual, com foco no cliente, liderança e envolvimento de todos, baseado em indicadores, com acompanhamento, avaliações e voltado para melhorar constantemente. Dessa forma, as instituições de saúde terão a possibilidade de realizarem melhor controle sobre os seus custos, reduzir as perdas, especialmente com aquisição e manutenção de tecnologia, melhorar a segurança de profissionais e pacientes, ser competitiva através do atendimento dos requisitos e necessidades dos clientes e demonstrar aos agentes financiadores a eficácia e eficiência dos seus resultados.



[1] A fatia correspondente ao pagamento direto é muito pequena e, portanto, foi desconsiderada.

(*) Mestre em Pedagogia Profissional pelo ISPETP _ Cuba, especialista em Qualidade Industrial e de Serviços e em Psicopedagogia Profissional; professor de Introdução à Engenharia Clinica do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia.