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ENSAIO
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Naírio
Augusto dos Santos(*)
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O administrador hospitalar e a decisão racional em Maquiavel
Um dos pontos básicos da atividade administrativa, senão o principal, é o processo decisório. Na gestão hospitalar, as decisões, em todos os níveis e áreas, são constantes. Peter Drucker (1974) assevera que o produto final do trabalho do gerente é decisões e ações. Como, em geral, as decisões precedem as ações, dentre as atividades do gerente, talvez a mais freqüente seja a tomada de decisão.
O processo de decisão, no ensinar de Hoppen (1992), compreende questionamentos, definição de ações e tomada de atitudes concretas. Nesse processo, merecem destaque as informações, que embasam os questionamentos e a definição de ações, e o tomador de decisão, que concretiza as atitudes. A tomada de decisão pode ser enfocada a partir de duas grandes abordagens:
Inúmeros autores estudaram o processo decisório, criando modelos e roteiros diferentes, tais como "modelo de Simon", "modelo de Mintzberg" e outros. A racionalidade absoluta requereria, de cada um de nós, fundamentação rígida e rigorosa para cada uma de nossas ações, o que seria, na prática, impossível. Aliás, essa impossibilidade da racionalidade explícita para cada uma de nossas ações já foi debatida e discutida por inúmeros filósofos, estudiosos e pesquisadores, "em todos os tempos". Neste texto, analisaremos algumas facetas da contribuição do florentino Niccolò Machiavelli (1469-1527) ao processo de decisão, apoiando-se em seus escritos, mais especificamente na obra "Il Principe" (1513), escrita no exílio e apresentada a Lourenço de Médici em 1515, em Florença, Itália.
Elementos de decisão e ação em Maquiavel
Há basicamente duas correntes distintas de interpretação da obra de Maquiavel. Uma humanista e outra "maquiaveliana". A propósito, o termo maquiavel parece ter-se originado do fato de referido autor entender serem os indivíduos, em geral, fundamentalmente maus, levianos, covardes, inegligentes, ingratos, estúpidos e invejosos, refletindo, até mesmo, sua experiência e decepção em relação ao poder àquela época. Por isso dizia que devemos estar sempre preparados para o pior e os homens devem ser contidos por mão firme.
Não obstante esse fato, Maquiavel declara não pretender discutir política, filosofia, ética ou moral, mas sim restringir-se a uma mera apresentação dos fatos, tais quais são, verdadeiramente, no intuito de orientar as decisões e ações dos príncipes. "Mas, sendo minha intenção escrever algo útil para quem se dispõe a entendê-lo, pareceu-me mais conveniente perseguir a verdade efetiva do que a sua idealização" (O Príncipe, cap. XV).[1] (E sarà mia colpa se così è?).
Despido de qualquer pretensão de analisar a obra de Maquiavel, cingir-me-ei à apreciação de alguns tópicos colhidos em vários capítulos e que, a meu juízo, proporcionam adequadas reflexões ao decisor hospitalar.
"E sucede nesse caso, como afirmam os médicos sobre as febres éticas (tísica, tuberculose), que no início são fáceis de curar e difíceis de conhecer (de diagnosticar), mas, não sendo ao longo do tempo nem conhecidas (diagnosticadas) nem medicadas, tornam-se fáceis de co-nhecer (diagnosticar) e difíceis de curar. O mesmo sucede nos negócios do Estado, pois se conhecendo antecipadamente (o que só é facultado aos sábios) os males que neste nascem, tais males são curados ra-pidamente, mas quando, por não terem sido conhecidos (diagnosticados), desenvolvem-se a um ponto que ninguém mais possa conhecê-los, não haverá mais remédio para eles" (cap. III).
"Mas há uma distância tão grande entre como se vive e como se deveria viver, que aquele que deixa aquilo que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende mais o caminho da própria ruína do que o de sua preservação" (Cap. XV).
Conclusão
O administrador eficaz, além do equilíbrio entre as habilidades
pessoais, técnicas e conceituais, para bem decidir, deverá saber penetrar na
"realidade das coisas". Daí, necessário se faz que saiba perceber os "sinais",
interpretar informações, situações e até mesmo fazer leituras verbais e não
verbais (posturais). É imprescindível que seja coerente, seguro e não tíbeo.
O complexo de perfeição pode ser sua ruína, pois a decisão deve ser, se não
absolutamente racional, satisfatoriamente aceitável, razoável. E, como ensina
Santos (1996), "além da razão, o processo decisório implica desejos e emoções",
quando não, a good guess (N.E: intuição). Por fim, é necessário que o administrador
hospitalar seja "leão", quando se tratar de afugentar os lobos, e "raposa",
quando a questão for fugir de armadilhas, para que não lhe suceda o pior, como
ocorreu a Otelo, no trágico conto shakes-peariano, que, mesmo sendo leão, não
soube fugir das armadilhas de Iago, acabando por matar sua doce e bela Desdêmona,
enciumado que estava de Cássio.