FEVEREIRO/MARÇO DE 2002
NÚMERO 35
ANO 3
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CAPA

Um novo atendimento

Luis Fontes

Maria Júlia: falhas na graduação.
Iniciativas mostram que é possívelmelhorar a humanizaçãono atendimento hospitalar.

A Associação Americana de Hospitais tem uma Declaração de Direitos do Paciente com 12 itens. O primeiro determina "que o paciente seja atendido com consi-deração e respeito". Para o professor Juarez de Queiroz Campos, médico e administrador hospitalar, autor de vários livros sobre huma-nização no atendimento hospitalar, por trás desse direito e de toda preocupação com humanização está uma palavra-chave: solidariedade. Ela deveria nortear o trabalho de todo profissional em saúde, mas isso está longe de acontecer. Do alto dos seus quase 50 anos de experiência, o professor Juarez não tem dúvida: "Solidariedade é genético. Por isso não é qualquer pessoa que pode trabalhar em hospitais".

O que o PNHAH pretende

Estes são os objetivos do Plano Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar lançado pelo Ministério da Saúde e dirigidos aos hospitais da rede pública:

  • Fortalecer e articular todas as iniciativas de humanização já existentes na rede hospitalar pública.
  • Melhorar a qualidade e a eficácia da atenção dispensada aos usuários da rede hospitalar brasileira credenciada ao SUS.
  • Modernizar as relações de trabalho no âmbito dos hospitais públicos, tornando as institui-ções mais harmônicas e solidá-rias, de modo a recuperar sua imagem pública junto à comunidade.
  • Capacitar os profissionais dos hospitais para um novo conceito de atenção à saúde que valorize a vida humana e a cidadania.
  • Conceber e implantar novas iniciativas de humanização nos hospitais que venham a beneficiar os usuários e os profissionais de saúde.
  • Estimular a realização de parcerias e trocas de conhecimentos e experiências nesta área.
  • Desenvolver um conjunto de indicadores/parâmetros de re-sultados e sistema de incentivos ao tratamento humanizado.
  • Difundir uma nova cultura de humanização na rede hospitalar credenciada ao SUS.

Professor Juarez: na própria pele.

Queixas generalizadas e exigência de direitos, em função do Código do Consumidor, explicam programa de humanização do MS.

A questão do atendimento humanitário está em evidência por causa do Programa Nacional de Huma-nização da Assistência Hospitalar (PNHAH) lançado pelo Ministério da Saúde e que pretende, em duas etapas, envolver 450 hospitais da rede pública até o final de 2002. Na exposição de motivos que levou o ministro José Serra ao lançamento do programa, ele ressalta que a qualidade da atenção ao usuário é uma das questões mais críticas do sistema de saúde brasileiro em função do número significativo de queixas dos usuários referentes aos maus tratos nos hospitais. E diz: "Na avaliação do público, a forma do atendimento, a capacidade demonstrada pelos profissionais de saúde para compreender suas demandas e suas expectativas são fatores que chegam a ser mais va-lorizados do que a falta de médicos, a falta de espaço nos hospitais e a falta de medicamentos". Ao mostrar que não é suficiente olhar apenas para os pacientes, o programa está preocupado também com a humanização das condições de trabalhos dos profissionais que atuam nos hospitais. Para o Mi-nistério da Saúde, "os funcionários que se sentem respeitados pela instituição prestam atendimento mais eficiente".

Origem dos problemas

A enfermeira Maria Júlia Paes da Silva, professora livre-docente da Escola de Enfermagem da USP, é uma dos nomes mais expressivos e respeitados na área da humanização. Ela considera que estamos avançando muito neste campo: "As grandes falhas começam na graduação e posso falar de todas, medicina, enfermagem, fisioterapia etc. Nos últimos 40 anos tivemos uma evolução tecnológica incrível e está difícil acompanhá-la. A necessidade de procurar atualização faz com que o papel do cuidador seja colocado em segundo plano".

Benefício interno e externo

José César Nascimento Carvalho é o administrador da Santa Casa de Cambuí (MG), oficialmente Hos-pital Ana Moreira Salles. Depois de conhecer as idéias da enfermeira Maria Júlia Paes da Silva sobre humanização no atendimento hospitalar, ele aproveitou um projeto em andamento, Santa Casa 2010, o Futuro Começa Hoje, para trabalhar mais intensamente a questão da humanização. Carvalho explica: "Todos sabemos sobre as dificuldades atuais das Santas Casas. Para melhorar nossa atuação criamos esse projeto e um de seus módulos é exatamente Hu-manização de Nos-sa Santa Casa. Nós o colocamos em prática agora, com a ajuda da Maria Júlia e de pós-graduandas orientadas por ela. Hoje, a diferenciação na qualidade do atendimento só com equipamento não é tão complicado. O difícil é trabalhar com pessoas".
Todos os profissionais do hospital participam de grupos de trabalho, onde discutem textos sobre humanização e casos envolvendo pacientes ocorridos no próprio hospital. Carvalho comenta que por ser de uma cidade pequena, onde é mais fácil as pessoas se conhecerem, o hospital já oferecia um bom atendimento na questãoda humanização. Mesmo assim, foi possível perceber um aumento nos comentários favorá-veis de pacientes em suas saídas. Além disso, afirma Carvalho, me-lhorou muito o relacionamento interno: "Descobrimos problemas que estavam abafados há muito tempo porque as pessoas sentiram-se à vontade para fazer críticas e sugestões. Isso trouxe um resultado muito bom para o trabalho em equipe".
Passada a fase inicial das reuniões em grupo, uma comissão cuida da formalização de normas, visando a continuidade do trabalho voltado para a humanização, já que ele não acaba nunca. Carvalho destaca ainda dois aspectos: "Primeiro, a criação dessas normas está sendo desenvolvida por uma equipe saí-da dos grupos, o que libera o administrador para outros traba-lhos. Segundo, o projeto todo não exige grandes investimentos, mas traz resultados fantásticos".


Uma das formas de valorizar o respeito pelo paciente e seus familiares é reconsiderar as permissões de visita.

Carvalho:"resultados fantásticos"

A administradora hospitalar e farmacêutica Lúcia Helena concorda em que os problemas começam na graduação: "Os alunos são treinados para lidar com ossos, músculos e cadáveres. Depois, no hospital-escola, lidar com seres vivos é um detalhe. Porque tudo continua sendo visto como patologia. Se você olha para um grupo de estudantes avaliando um paciente, nenhum deles se lembra de perguntar seu nome ou que está pensando. Olham para perna, estômago, tudo. Menos para a pessoa". Mas esse quadro começa a se alterar. As queixas generalizadas e a exigência de direitos, cada vez mais forte em função do Código de Defesa do Consumidor, explicam o lançamento do PNHAH e as próprias mudanças no ensino. Maria Júlia observa, feliz, que escolas importantes em vários Estados passaram a cuidar melhor da humanização na graduação. Ninguém espera que o padrão ideal possa ser atendido em curto prazo. Mas os responsáveis por cada hospital podem parar por um instante, refletir melhor sobre os problemas e agir.

Sentindo na própria pele

A farmacêutica Lúcia Helena Presoto fez especialização em administração hospitalar e hoje é professora em cursos de pós-graduação para profissionais da área de saúde (médicos, psicólogos, enfermeiros etc.). Ela diz: "Sempre que começo um curso pergunto aos meus alunos o que marcou a passagem deles por um hospital, como paciente ou acompanhante. Em 95% dos casos, eles fazem referência ao atendimento _ bom ou ruim. Ou seja, ressaltam a questão da relação humana".

Ela e o professor Juarez de Quei-roz Campos publicaram recentemente o livro Inteligência Emocional _ A Voz do Coração. Nele, o professor relata como foi atendido no próprio hospital em que era diretor administrativo, a Santa Casa de São Paulo, depois de um acidente de carro na Via Dutra, estrada que liga Rio de Janeiro e São Paulo. Com dores nas pernas e nas costas, foi reconhecido por um ex-aluno em plena estrada, que o levou à Santa Casa. Na chegada, a recepcionista, que não o conhecia, o tratou como um paciente co-mum, com perguntas intermináveis até que professor Juarez encerrou:

- Dá para pedir para o plantonista me atender?

- O senhor vai ter de aguardar. Tem muita gente na frente. Além disso, o plantonista foi jantar.

O professor Juarez pensou: "A gente deixa uma nutricionista de plantão só para não faltar nada aos residentes e plantonistas e o doutor resolve jantar fora". Mais de uma hora de espera e aparece um plantonista. Para surpresa do professor, era um sexto-anista que nem poderia ser escalado para atender na traumatoortopedia. Depois de algumas perguntas sem sentido, inclusive a marca do carro envolvido no acidente, e sem colocar as mãos no paciente, o plantonista pediu um raios-x das pernas.

No Serviço de Radiologia havia três outros pacientes. "O operador apareceu, com ar cansado, impessoal e certamente desinteressado. Pegou o primeiro da fila e jogou-o na mesa de exames, como se fosse um saco de batatas. Quando chegou a minha vez não foi dife-rente". Depois de nova espera, o técnico tentou dar sua interpretação para o raios-x, o professor Juarez não concordou e ouviu o comentário: "O chefe do plantão já se recolheu. A gente não é de ferro". Mais um longo tempo e o operador voltou.

- O seu exame não deu nada e o senhor está liberado.

- E as minhas costas?

- É melhor falar com o plantonista.

Mas o plantonista também tinha ido descansar. Não dava para agüentar mais e Juarez resolveu se identificar. Como num passe de mágica apareceram o chefe do plantão, o preceptor da residência e o plantonista do turno. "Só faltou me colocarem em seus colos", explica o professor sobre o atendimento que recebeu a partir daí.


Lúcia: pacientes sem nomes.

Maria Júlia ressalta que existem alguns indicadores de qualidade. A própria taxa de infecção, que pode ser bem quantificada, reflete problemas com a humanização. "Ainda hoje, o maior problema com infec-ção hospitalar diz respeito à lava-gem de mãos. O profissional pensa: 'Por que vou lavar minhas mãos se ninguém está olhando'? Ele precisa se convencer que agindo assim poderá prejudicar seriamente um paciente".

Outra forma de valorizar o respeito pelo paciente e seus familiares é reconsiderar as permissões de visita. Para Maria Júlia, esse aspecto melhorou muito mas ainda existem hospitais que mantêm normas ultrapassadas. "Uma das coisas que mais faz bem para quem está muito grave é lembrar que tem gente que quer sua melhora. Sabemos que um beijinho no rosto, um carinho nos pés, um afago nas mãos, mesmo em pessoas entubadas, chega a alterar a freqüência respiratória e cardíaca".

Há vários caminhos e o exemplo do Hospital Ana Moreira Salles, de Cambui (MG), é um deles (veja quadro na página anterior). Fundamental, sempre, é procurar ouvir o paciente em sua saída. Juarez de Queiroz Campos é enfático: "Não se pode deixar o paciente sair, com alta, sem preencher uma formulário bem elaborado com críticas e sugestões. Sem isso não há chances de melhorar nada".