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CRÔNICAS
MÉDICAS
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Stanley
Baaptista de Oliveira(*)
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Histórias de um médico do interior
O médico na cadeia
Eu era recém-formado em medicina e morava no Hotel Cassino. Era domingo, eu estava deitado no quarto, esperando a hora do almoço, quando o Agostinho bateu na porta, dizendo que dois soldados estavam na portaria me procurando.
- Dois soldados? O que eles querem comigo?, perguntei assustado.
- Sei, não, respondeu o garçom do hotel.
Desci à portaria e me dirigi aos soldados.
- O senhor é o médico?, perguntou um deles.
- Sim, por quê?
- O delegado mandou pegar o senhor e levá-lo para a delegacia.
Fiquei pálido. _ Meu Deus, que será que eu fiz de errado?, pensei.
- Tem um preso lá na cadeia que ficou doido e o delegado está precisando de um médico para dar um calmante para ele.
Respirei fundo, aliviado.
- Mas, como está o preso? O que ele está fazendo?, perguntei.
- Ah, doutor, ele está gritando, xingando, ficou pelado e está batendo a cabeça na parede. Eu queria jogar um balde de água fria nele mas o delegado não deixou. Falou que era desumanidade. Disse que um médico teria que cuidar dele.
Fiquei pensando qual providência médica seria adequada num caso daqueles. Disse aos soldados que teria que ir ao hospital pegar um calmante bem forte, seringa, agulha e garrote.
- Não tem problema. Nós estamos com a viatura lá fora. Levamos o senhor.
No hospital, peguei o material necessário e procurei na farmácia o calmante injetável que me pareceu adequado. Naquela época, exis-tiam poucos produtos psicotrópicos. Peguei uma ampola de Fener-gan e levei outro remédio chamado Siquil. Iria associar as duas ampolas e aplicá-las na veia do tal preso agitado que, com toda certeza, dormiria de imediato, ficaria mansinho.
Em
seguida, na viatura, junto com os dois policiais, desci para a delegacia, que
ficava ao lado da Praça do Mercado, atrás do armazém do
Géo. Havia uma passagem estreita, acimentada, cheia de barracas improvisadas
onde se vendiam verduras, frutas, queijos da roça, ovos e galinhas. Aquela
área estreita, comprida, barulhenta e suja era o "mercado"
de Monlevade (1), aí por volta de 1962. No alto daquela passagem, uma
rampa. Depois de cruzar com verdureiros, mascates e fregueses, cheguei à
Delegacia de Polícia, uma casa pequena com uma sala para o delegado,
outra para os soldados e duas pequenas celas. Uma das celas estava vazia e,
na outra, estava o elemento, nu, assentado no chão. Ao nos ver, levantou
o rosto, aspecto enfurecido, olhos arregalados, feições contraídas.
-Eu não vou entrar aí sozinho, falei para os dois soldados. Seria melhor que vocês o pegassem, esticassem o braço dele para fora da grade, aí eu aplico a injeção na veia dele e tudo se resolve.
Os soldados também não quise-ram entrar na cela e enfrentar aquele preso enfurecido. Um deles pegou uma lata com comida e a ofereceu ao preso.
- Olha aqui o seu almoço. Vem pegar.
O preso, apesar do aspecto ensandecido, levantou-se do seu canto e encaminhou-se para a grade, para pegar a lata com seu almoço. Ao esticar a mão para pegar a comida, ela foi violentamente puxada pelo soldado para fora da grade. O outro soldado veio rápido para ajudar o colega, segurando firme no braço do preso, enquanto o primeiro o puxava pelo punho. O doido deu um berro, começou a xingar palavrões e a cuspir nos soldados, com a cara espremida contra a grade.
- Depressa, doutor! A veia do braço tá no jeito!, gritava um soldado.
Enquanto isso, eu preparava a seringa: fixei a agulha, ajustei o êmbolo, quebrei a ampola de Fenergan e aspirei o remédio para dentro da seringa. Depois, a ampola de Siquil e aspirei também esse remédio para dentro da seringa. No momento em que os dois remédios se misturaram na seringa, aconteceu um imprevisto. As duas substâncias não se combinaram. Aconteceu um negócio chamado floculação. Formou-se uma espécie de gelatina branca dentro da seringa. Fiz uma careta e falei para os soldados:
- Não vai dar, não. O remédio está estragado. Não tem jeito de aplica-lo na veia do preso.
-Ah, doutor, essa não!, protestou um dos soldados. Tanto trabalho para nada?
-É, não tem jeito, não. O remédio deve estar velho, estragado, disse eu, mostrando a seringa emperrada por aquela mistura branca, gosmenta, produto da mistura inadequada que eu, na minha ignorância e inexperiência de recém-formado, fizera.
-E agora, o que vamos fazer com esse doido?
O doido continuava gritando, xingando, cuspindo, esperneando, enquanto os dois soldados o seguravam firme pelo braço puxado para fora da grade. Pensei numa medida capaz de acalmar aquele infeliz e só me ocorreu esta:
-Joguem um balde de água bem fria nele. E fui embora para o Hotel Cassino.
(1) João Monlevade, cidade do interior de Minas Gerais.
(*) Escritor e médico.