ABRIL/MAIO DE 2002
NÚMERO 36
ANO 3
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SANTAS CASAS
 
Roberto De Biasi, M.Sc. (*)

 

Visão estratégica para a sobrevivência


Originariamente, a direção das Santas Casas era centralizada na figura do Provedor. Este possuía auxiliares diretos muitas vezes sem qualificação profissional de nível superior mas que eram pessoas de inteira confiança, e ligadas política e/ou afetivamente ao Provedor. Posteriormente, a Mesa Administrativa, composta de 15 membros, procurou auxiliar o Provedor em aprovações de contas ou outras situações específicas e eventuais. Foi instituído o cargo de Diretor Geral para descentralizar as atividades administrativas e financeiras desempenhadas pelo Provedor (normalmente um médico, político ou empresário e que não despachava os documentos diariamente e sim uma a duas vezes por semana). Assim, o Diretor Geral pode ser comparado com a figura do Vice-Presidente Executivo de uma empresa ou até mesmo do Superintendente.

Podemos comparar o modelo gerencial das Santas Casas com o modelo da estrutura hierárquica linear, na qual as linhas de autoridade são centralizadas no topo (Provedor e Diretor Geral) e as comunicações são formais, agindo nos dois sentidos _ do topo para os diversos setores e destes para as chefias e para as diretorias.

Ocorreu, entretanto, que a demanda dos serviços assistenciais aumentou sensivelmente em face dos atendimentos ao SUS e aos planos de saúde, embora a demanda de pacientes particulares tenha diminuído. Com essas situações, o volume de documentos aumentou, as comunicações ficaram mais dinâmicas e a presença do Provedor, que antes era ocasional, tornou-se necessária diariamente. Os problemas financeiros começaram a se avolumar e o controle e a tomada de decisões tornou-se mais difícil, pois não há uma gestão profissional e sim, política.

Atualmente, o Provedor delega ao Diretor Geral várias atribuições, entre as quais assinaturas de documentos, segunda assinatura nos cheques, decisões administrativas, contatos com bancos etc. Em outras Santas Casas de pequeno porte prevalece somente a assinatura do Provedor ou através de Procuração em cartório, para que o Diretor Geral ou um dos membros da Mesa Administrativa possa assinar como substituto eventual.

Porém, esse tipo de estrutura organizacional não atende mais aos anseios da moderna administração e é necessária a criação de órgãos que, além de assessorarem o Provedor, tenham uma visão empresarial e estratégica. Surge então, uma nova modelagem para a gestão das Santas Casas _ a implantação dos Conselhos Diretores (em substituição às Mesas Administrativas) e conceitos de gestão empresarial, planejamento estratégico e Governança Corporativa.

Vale dizer que não se trata somente de mudança de nomenclatura e sim de uma verdadeira transformação na estrutura organizacional e nos procedimentos para atingir-se uma verdadeira gestão empresarial, atuante, dinâmica e, sobretudo, responsável pela sobrevivência das Santas Casas.

Ao Conselho de Administração caberá não apenas o status e sim uma efetiva participação na aprovação de metas e objetivos traçados anualmente através do planejamento estratégico, bem como no acompanhamento mensal e permanente, verificando-se, entre outros indicadores, receitas, despesas, grau de endividamento, setores (como unidades de negócios) lucrativos ou deficitários etc.

É importante frisar que também se desenvolve com esse conselho uma gestão empresarial e participativa, voltada para o controle, constante vigilância, bem como as análises e projeções para uma administração realista em face das necessidades diuturnas e prospecções para o futuro dessas entidades.

Chega-se também ao conceito de "governança corporativa", em que iremos definir, entre outras variáveis do planejamento estratégico, outras que possam ser dinamizadas e constantemente avaliadas para que não se atinjam situações de insolvência. Também um dos fatores relevantes é a substituição de um tipo de estrutura composta politicamente, sem muita vivência empresarial, por outra composta de pessoas técnicas com muita experiência e vivência empresarial e entendendo que, apesar de uma visão filantrópica, tecnicamente deve ser atingido um lucro não só em termos financeiros mas com o cunho social. Assim, estamos certos de que essa nova filosofia será um grande passo para a modernização e sobrevivência das Santas Casas.



(*) Mestre em Ciências Empresariais (Espanha), Administrador Hospitalar e Economista.