ABRIL/MAIO DE 2002
NÚMERO 36
ANO 3
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ADMINISTRAÇÃO
 
Eduardo Martinho (*)

 

Por que escolher o tema da humanização

 

As empresas progrediram, as técnicas evoluíram e o hospital também recebeu o impacto da pressa e do progresso. Conservador, tradicional, o hospital, de tanto ser sacudido, parece que despertou e, perplexo, foi se conscientizando de que havia ficado para trás. Tratou, então de recuperar o tempo perdido. Mas, como? Pela melhoria do planejamento, reforma na área física, troca de equipamentos obsoletos por modernos, eletrônicos e cada vez mais sofisticados, diriam alguns. Pois, não estamos na época da tecnologia?, asseverariam outros. Obras monumentais de pedra e cal sempre terminam em bustos e inaugurações, motivando o homem para a sua perpetuação como individualidade histórica. Quantos não gostariam de ficar na História?

Por isso, em matéria de hospital, têm sido criados verdadeiros elefantes brancos, esquecendo-se da razão de ser do hospital: o ser humano e o atendimento humanizado. Construir hospitais é tarefa fácil. O difícil é a sua manutenção e humanização.

O Ministro da Saúde, José Serra, ao identificar o número significativo de queixas dos usuários dos SUS, quanto aos maus tratos nos hospitais, tomou a iniciativa de convocar um grupo de trabalho, composto em sua maioria por profissionais da área da saúde mental, incumbido de elaborar uma proposta de trabalho para a humanização dos serviços hospitalares públicos de saúde. Desse modo, surge a proposta do PNHAH, apresentado em Brasília em 24 de maio de 2000, operacionalizado inicialmente por meio de um projeto-piloto em dez hospitais do país e lançado oficialmente em 19 de junho de 2001, estando dividido em duas etapas. Na primeira participam 94 hospitais, cuja idéia é desenvolver nessas unidades iniciativas humanizadoras e capacitar profissionais para um atendimento mais solidário. A segunda fase do programa ocorr eu em abril de 2001. Até o final de 2002, 450 hospitais estarão participando da iniciativa.

O PNHAH inclui a capacitação de profissionais, a criação de Grupos de Multiplicadores de Humanização Hospitalar e da Rede Nacional de Humanização, além da entrega do título de "Hospital Humanizado" às instituições que se destacarem nessa área. A qualidade da atenção hospitalar é uma das grandes preocupações do Ministério da Saúde. Nos últimos cinco anos, o governo federal investiu R$ 1,3 bilhão na recuperação da rede hospitalar e aquisição de equipamentos. Desse total, R$ 160 milhões na área de urgência e emergência, R$ 190 milhões para assistência ao parto e R$ 950 milhões para reformas e compra de equipamentos por meio do Reforsus (Programa de Reforço à Reorganização do SUS). O PNHAH parte do princípio que para melhorar a qualidade da assistência não basta apenas investir em equipamentos e tecnologia. É imprescindível também que o paciente seja bem tratado, com respeito e atenção.

O funcionário que presta o atendimento (seja médico, recepcionista ou enfermeiro) deve compreender o estado de fragilidade em que se encontra o paciente. O tratamento se torna mais eficaz quando a pessoa é acolhida, ouvida e respeitada pelos profissionais de saúde. Em contrapartida, também se faz necessária a humanização das condições de trabalho destes profissionais. Os funcionários que se sentem respeitados pela instituição prestam atendimento mais eficiente. Diante desta realidade, o PNHAH vai atuar em duas vertentes: a humanização do atendimento e das condições de trabalho.

A sustentação do PNHAH deverá considerar, fundamentalmente os seguintes fatores:

Participação constante e ativa da alta administração e do grupo de trabalho de humanização hospitalar.

Identificação e aproveitamento de mecanismos de participação co-munitária (parcerias com organizações e movimentos sociais).

Fortalecimento de uma cultura de atendimento humanizado de saúde por meio da criação de canais de comunicação e divulgação do programa na mídia.

Articulação com projetos de medicina preventiva.

Concluindo, a humanização, mais do que acesso a um sistema de qualidade, toda pessoa, sem distinção, deve ser atendida com respeito e atenção. O lado humano sempre deve ser a base da relação dentre os usuários e os profissionais de saúde.



(*) Administrador hospitalar, professor de pós-graduação de Administração em Saúde da Universidade de Ribeirão Preto e assessor