ABRIL/MAIO DE 2002
NÚMERO 36
ANO 3
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RESÍDUOS HOSPITALARES
 
Fernanda Silveira (*)


O papel do enfermeiro na gestão ambiental

 

No decorrer das últimas décadas temos presenciado, em nível planetário, a degradação ambiental e suas catas-tróficas conseqüências, tornando-se essa uma das principais preocupações nesse novo século. Por volta do século 19 surgiram os primeiros estudos e reações no sentido de se conseguir fórmulas e métodos de diminuição dos danos ao meio ambiente. Como conseqüência des-ses estudos a ONU criou em 1983 a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Essa comissão tinha como objetivos reexaminar as questões críticas relativas ao meio ambiente e reformular propostas realísticas para abordá-los. Propôs também novas formas de cooperação internacional através de incentivos às organizações voluntárias, às empresas, aos institutos e governos, disponibilizando informações visando uma compreensão maior desses problemas, incentivando todos a uma atuação mais firme nesse sentido.

Os trabalhos da comissão foram concluídos por volta de 1987 com a apresentação de um diagnóstico dos problemas globais ambientais. Essa propôs que o desenvolvimento econômico fosse integrado à questão ambiental para garantir um desenvolvimento sustentável que recebeu a seguinte definição: " desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem sua próprias necessidades".

Em 1992, o Rio de Janeiro realizou a Conferência sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (considerado o mais significativo evento diplomático no final do século 20), quando foi bastante ampliado o horizonte de discussões sobre as questões ambientais. Ali surgiram diversas dificuldades e propostas por parte das organizações, principalmente na busca do desenvolvimento sustentável. As organizações perceberam que o gerenciamento ambiental tem se tornado uma questão estratégica, analisado pela seguinte ótica: a preservação ambiental gera redução de custos e aumento da competitividade da organização pela melhoria do desempenho ambiental, ou seja, através do gerenciamento e do controle dos impactos ambientais.

Os impactos ambientais de uma organização podem ter como conseqüência: grande degradação ambiental, enormes custos de reparação, pelos processos de responsabilidade civil, multas dos órgãos de controle ambiental, desperdício dos recursos naturais não-renováveis (água, energia etc), além de um forte desgaste na imagem da empresa. No Brasil, os negócios para a preservação ambiental passam por uma de suas melhores fases. Crescem na faixa de 20% a 50% ao ano. "O Ministério Público e o Estado estão atuando fortemente na questão ambiental e as multas são pesadas", além disso, "as empresas que não se preocupam com a questão ambiental podem ser bem sucedidas do ponto de vista econômico, em um primeiro momento, mas, em médio prazo, podem denegrir sua ima-gem", diz Marcos Ferreira, gerente sênior de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da consultoria Arthur D. Litte (Jornal Gazeta Mercantil).

Diante desse quadro econômico-ambiental, as organizações brasileiras de diversos ramos de atividade estão em busca da melhoria de seu desempenho ambiental. Elas identificaram a necessidade de implementar uma metodologia para o gerenciamento ambiental, buscando a Certificação do Sistema de Gestão Ambiental, a ISO 14001 / 96. Dentre elas, estão as organizações de saúde.

Os principais impactos ambientais gerados pelas organizações de saúde, principalmente na área hospitalar, são a emissão de efluentes líquidos, descarte de resíduos sólido comum e infectante, descarte de produtos químicos, descarte de resíduos biológicos e esgotamento de recursos naturais não renováveis. Os hospitais que buscam a melhoria do seu desempenho ambiental devem contemplar, em seu Sistema de Gestão Ambiental, seu principal produto: o cliente (paciente). Portanto, a equipe de enfermagem tem um papel importante no gerenciamento ambiental, já que as atividades desenvolvidas por esses profissionais interagem de forma direta e efetiva nas questões ambientais, pois a maioria dos controles dos impactos ambientais estão interinamente ligados à qualidade da assistência prestada.

Os controles operacionais correspondem às ações práticas, métodos e demais instruções aplicáveis aos aspectos ambientais de suas atividades; objetivam atenuar ou manter estáveis os respectivos impactos ambientais associados. A Educação Continuada e o Serviço de Controle de Infecção possuem um papel fundamental nesse contexto, através da conscientização ambiental, treinamento e monitoramento das ações de enfermagem, da auditoria dos processos próprios à equipe de enfermagem e identificação das ações preventivas e corretivas pertinentes às atividades desenvolvidas.

As ações da enfermagem contribuem de forma importante para o desenvolvimento sustentável e por isto devem fazer parte de seus objetivos, mas, para atingi-los, é necessário conjugar esforços por parte de toda a equipe. Uma nova perspectiva surge portanto para a enfermagem, quando inserida neste processo. Cabe a todos refletirem sobre o seu papel, não somente como profissional, mas também como cidadão, no que se refere à preservação do meio ambiente. Devemos unir esforços para combater os problemas ambientais com soluções efetivas e criativas nas unidades de saúde. Devemos desenvolver uma consciência ecológica, alicerçada na é tica ambiental, no qual o Homem é parte integrante. Este é o nosso papel. Portanto, desenvolvimento sustentável deve se constituir em um objetivo planetário, um objetivo de toda a humanidade, para que possa ser alcançado.



(*) Enfermeira e coordenadora do Sis-tema de Gestão Ambiental do Hospital Santa Cecília (SP), com especialização em Administração Hospitalar e extensão universitária em Direito Ambiental.