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CAPA
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Para onde caminha a saúde
| Vianna: lógica do mercado. |
Dois estudos coordenados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e divulgados no final do ano passado trazem um amplo panorama do futuro e da atual situação da administração da saúde no País. Um olha para o futuro e outro analisa o passado. O primeiro chama-se "Tendências do Sistema de Saúde Brasileiro", pesquisa realizada com 135 perso-nalidades brasileiras do setor. O segundo, "Medindo as Desigualdades em Saúde no Brasil: Uma Proposta de Monitoramento", realizado com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), que registra no papel a já conhecida - mas com informações surpreendentes - desigualdade social da saúde no País.
O painel sobre tendências do sistema de saúde traz, por exemplo, que os dois atributos que serão mais valorizados pela sociedade até o final desta década são qualidade técnica dos serviços, em primeiro lugar, e respeito aos direitos dos pacientes, em segundo. O que mostra a crescente conscientização dos usuários e o aumento do nível de exigência por parte deles.
| Piola: administradores devem se antecipar. |
O médico sanitarista Sérgio Francisco Piola, 54 anos, técnico de planejamento do IPEA e coordenador da pesquisa, propõe que os atuais administradores se antecipem a essas tendências e implantem ações voltadas para a qualidade e respeito ao paciente. Por outro lado, a pesquisa sinaliza o incremento dos serviços de home care, que deverão ser expandidos tanto na rede privada, na opinião de 91,2% dos entrevistados, quanto na pública (para 77%). A preocupação com custos assistenciais deve levar as operadoras de planos e seguros de saúde a defender mecanismos de contenção, o que "terá sérios reflexos na administração dos hospitais", na opinião de Piola.
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Tendências para a década Valores sociais sobre saúde
Organização e estrutura
Aspectos econômicos
Mercado e regulação
Recursos humanos
Ciência e tecnologia em saúde
Perfil epidemiológico
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Piola
avalia ainda que a tendência, segundo o estudo, é de preservação
dos princípios e diretrizes do segmento público, como universalidade,
integralidade da assistência, descentralização da gestão
e gratui-dade do atendimento. Já no setor privado, as tendências
apontam para a continuidade no crescimento da cobertura dos planos e seguros
de saúde, aumento dos gastos privados, preservação dos
subsídios fiscais e aumento da oferta de serviços.
A mesma pesquisa já foi realizada em países com
Uruguai e Espanha. Apesar de os resultados dependerem de variáveis políticas
e culturais de cada lugar, é possível traçar tendências
globais para a área da saúde: a preocupação com
qualidade e direitos dos pacientes (mais uma vez), a incorporação
racional de novas tecnologias e sua repercussão com os custos assistenciais,
a busca de modelos mais voltados para a promoção e prevenção,
a descentralização da gestão e um Estado mais regulador
e financiador e menos provedor direto.
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Medindo as desigualdades |
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| Indicadores de oferta | |||
|
Por mil habitantes |
1990
|
1999
|
Variação
|
|
Médicos |
1,23
|
1,6
|
30%
|
|
Odontólogos |
0,65
|
0,69
|
6,15%
|
|
Enfermeiros |
0,25
|
0,41
|
64%
|
|
Leitos SUS |
3,37
|
2,99
|
- 11,3%
|
|
Ambulatórios SUS |
2,84
|
3,40
|
19,7%
|
|
Médicos por região |
|||
|
Por mil habitantes |
1990
|
1999
|
Variação
|
|
Norte |
0,50
|
0,38
|
-31%
|
|
Nordeste |
0,63
|
0,85
|
34%
|
|
Sudeste |
1,81
|
2,34
|
29%
|
|
Sul |
1,14
|
1,57
|
37%
|
|
Centro-Oeste |
1,23
|
1,60
|
30%
|
|
Leitos cadastrados no SUS por região |
|||
|
Por mil habitantes |
1990
|
1999
|
Variação
|
|
Norte |
1,91
|
2,02
|
5,7%
|
|
Nordeste |
2,87
|
2,81
|
-2,1%
|
|
Sudeste |
3,71
|
3,13
|
-15,6%
|
|
Sul |
3,85
|
3,18
|
-17,4%
|
|
Centro-Oeste |
3,82
|
3,54
|
-7,3%
|
|
Acesso e utilização |
|||
|
Por mil habitantes |
1990
|
1999
|
Variação
|
|
Internações hospitalares SUS / 100 hab. |
9,24
|
7,19
|
- 22%
|
|
Consultas médicas SUS / habitante |
1,91
|
2,19
|
14,7%
|
|
Cobertura vacinal DPT (3ª dose) |
95,4
|
94,6
|
- 0,84%
|
|
Cobertura vacinal - sarampo |
103,5
|
99,5
|
-3,8%
|
|
Cobertura vacinal - poliomielite |
92,7
|
99,1
|
6,9%
|
|
Número de pessoas de cinco a 19 anos que nunca foram ao dentista |
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|
25% da população brasileira (cerca de 42 milhões de pessoas). |
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|
Indicadores de gastos |
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|
1990 | 1999 |
Variação
|
|
Gasto do Ministério da Saúde - per capita |
R$ 81,59 | R$ 98,92 |
21,2%
|
|
Gasto médio por internação hospitalar |
R$ 357,48 | R$ 380,58 |
6,4%
|
|
Gasto médio - internação alta complexidade |
R$ 3.122,42 | R$ 2.292,54 |
-26%
|
|
Indicadores de qualidade em saúde |
|||
|
|
1990
|
1999
|
Variação
|
|
Partos cesáreos (SUS) |
32,67
|
24,89
|
- 23,8%
|
|
Porcentagem de óbitos mal definidos |
18,17
|
14,92
|
- 17,9%
|
|
Hospitais Amigo da Criança/Maternidade |
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|
Segura |
-
|
177
|
-
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|
Periodicidade anual |
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1990
|
1999
|
Variação
|
|
Taxa de mortalidade infantil (mil NV) |
49,4
|
36,1
|
- 26,9
|
|
Esperança de vida ao nascer (masc) |
62
|
64
|
3,2%
|
| Esperança de vida ao nascer (fem) |
69
|
72
|
4,7
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| Fonte: Medindo as desigualdades em Saúde no Brasil: Uma Proposta de monitoramento - IPEA/OPAS 2001. | |||
"O aspecto mais importante não é tanto se essas previsões serão de fato concretizadas", lembra Sérgio Piola. "A maior utilidade está no uso que pode ser feito hoje das opiniões emitidas". Para ele, com base nas respostas dos pesquisados é possível, no decorrer da década, reorientar, ou reforçar, políticas e estratégias. "Incrementar as tendências consideradas positivas e tentar anular as negativas", afirma.
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A metodologia do estudo A metodologia do estudo A metodologia utilizada no estudo "Tendências do Sistema de Saúde Brasileiro" foi uma adaptação do Método Delphi, desenvolvido nos Estados Unidos em 1952 por pesquisadores da Rand Corporation e concebido para proporcionar um instrumento de previsão no campo político e militar. Posteriormente, passou a ser utilizado com êxito no campo empresarial, de novas tecnologias, na sociologia e na saúde. A técnica procura obter uma opinião coletiva qualificada sobre determinadas questões a partir de um grupo de pessoas selecionadas, especialistas ou formadores de opinião. Basicamente, é um método qualitativo, uma vez que se baseia no conhecimento e experiência acumulados pelos entrevistados. Coordenado por Sérgio Francisco Piola e com a colaboração de Sólon Magalhães Vianna e David Vivas Consuelo, o estudo contou com a colaboração de um comitê composto por especialistas nas diversas áreas pesquisadas. Os painéis foram compostos por parlamentares, ex-ministros da saúde, dirigentes partidários, gestores do SUS, secretários e ex-secretários estaduais e municipais de saúde, dirigentes e exdirigentes do Ministério da Saúde; diretores de estabelecimentos públicos de saúde, empresários, dirigentes da rede privada, médicos, enfermeiros e representantes das organizações da sociedade civil e do Ministério Público. Foram ouvidos 138 painelistas, dos quais 105 (76,1%) participaram das duas etapas do estudo (primeiro e segundo questionários). Todos os participantes receberam o mesmo questionário e a cada um, o que é importante, foi solicitado que expressasse o próprio ponto de vista quanto à tendência esperada e não o que gostaria que acontecesse. "É a primeira vez que a técnica é utilizada no Brasil para avaliar as tendências do sistema de saúde. Já foi utilizado em outros países, como Espanha e Uruguai, com a mesma finalidade", explica Piola. |
Já o estudo Medindo as Desigualdades em Saúde no Brasil, concluído em 2000 e divulgado no final de 2001, confirma a distribuição espacial de recursos físicos e humanos, particularmente na oferta de médicos. É nesse aspecto que se observam as maiores diferenças. Para o sanitarista gaúcho Sólon Magalhães Vianna, 68 anos, um dos autores do estudo (ao lado de André Nunes, James Richard Santas e Rita Bar-radas), isso sugere que a expansão das faculdades de medicina nas últimas três décadas não tem contribuído para melhorar a divisão geográfica desses recursos humanos. "Ela segue menos conduzida pelas necessidades da população do que pela lógica do mercado", analisa Vianna. A região Norte, por exemplo, têm seis vezes menos médicos que o Sudeste. "Mas, o mais grave é que esses indicadores não se reduziram. Em 1990, a relação era de 3,7 vezes".
Outra constatação importante foi que a década de 90 registrou uma redução de 22% na cobertura hospitalar do SUS. "A queda é compatível com a tendência universal de redução de oferta de leitos e a substituição de procedimentos antes realizados sob internação por alternativas ambulatoriais de igual eficácia e menor custo", explica Vianna. Ao compensar a política de desospitalização, a taxa de consultas por habitantes cresceu 14,4% ente 1995 e 1999.
Entre
1988 e 1996 as famílias de classes sociais mais baixas tiveram aumento
de 22% nos gastos com assistência à saúde. Mas, em valores
absolutos, o gasto per capita das famílias de todas as classes diminuiu
de R$ 428 para R$ 294. Um outro estudo do IPEA conclui que a redução
dos valores reais com saúde se deve ao "efeito SUS", na medida
em que os usuários de menor renda estariam gastando menos com saúde
do que antes da criação do sistema.
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Para obter os estudos
Os dois estudos podem ser obtidos diretamente no IPEA, pelo telefone (61) 315-5336 ou por intermédio do e-mail editbsb@ipea.gov.br ou, ainda, nos postos do IBGE nas capitais. |
No campo da qualidade há uma nítida redução no percentual de óbitos mal definidos, um bom indicador de qualidade não só no sistema de informação como no da assistência médico-hospitalar. Ainda assim, a relação entre baixa escolaridade é proporção de óbitos mal definidos é alta. "A primeira e mais importante medida pública é a redução das desigualdades de renda e a melhoria da qualidade da escola fundamental", sugere Vianna. A segunda medida, para o sanitarista, é tornar o inanciamento federal para a saúde mais eqüitativo.