JUNHO/JULHO DE 2002
NÚMERO 37
ANO 4
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SEGUNDA OPINIÃO

Médicos, administradores e enfermeiros:
como fazer esta parceria dar certo?

Antônio Luís Navarro
Superintendente Geral da Fundação Amaral Carvalho Jaú - SP
Fernanda Oricchio
Enfermeira e Consultora
Arthur Castilho
Médico otorrinolarin-gologista do Hospital das Clínicas.

Valorização

O ambiente hospitalar, por suas características próprias, normalmente é considerado estressante. Envolve, num mesmo local, profissionais das áreas médica e de enfermagem, pa-cientes e familiares, geralmente aflitos. Cabe à organização, através dos profissionais de Recursos Huma-nos, tentar minimizar os conflitos prontamente, harmonizando o am-biente de modo a reduzir os níveis de ansiedade das partes envolvidas.

É preciso atuar, na medida do possível, de maneira preventiva na identificação dos conflitos, bem como treinar e valorizar os indivíduos, dos colaboradores ao corpo clínico. A maneira mais adequada de resolver esses conflitos é alcançada com um modelo de gestão participativa, transparente, capaz de fazer as pessoas refletirem sobre a verdadeira situação da organização.

Como conseqüência, médicos, enfermeiros e administradores têm condições de agirem oportunamente, contribuindo para melhorar o atendimento ao paciente, que é o foco principal das organizações hospitalares sintonizadas com sua missão profissional. Não podemos nos esquecer da inserção desses colaboradores na comunidade, mostrando a eles a importância de seu trabalho e dos valores que se agregam a eles. Os objetivos comuns da organização devem ser compreendidos e perseguidos por todos, da mesma forma que os valores, principalmente o conceito de humanização do atendimento. Valorização profissional, transparência, objetivos co-muns e prevenção de conflitos, são os ingredientes fundamentais a uma receita de parceria sólida e bem sucedida na gestão hospitalar.

Equipe

Nossa missão é "prestar assistência adequada ao cliente". Ela pode ser cumprida somente quando realizamos trabalho em equipe, montamos um "time", definindo os papéis. Muitas vezes, observamos uma luta incessante pelo "poder". Cada profissional tenta definir que seu trabalho é o principal, embora todos trabalhem com a meta de prestar a melhor assistência. Dentro de um hospital é impossível ser uma ilha, ocasionando resultados insatisfatórios e incompletos.

O enfermeiro, por não ter seu papel bem definido dentro de algumas instituições, disputa com o médico a assistência e não consegue, muitas vezes, quebrar o mito do médico ser o único "proprietário e responsá-vel" pela cura. Compartilhar res-ponsabilidades só é possível quando o enfermeiro se posiciona cientificamente. Já a eterna discussão enfermagem versus administração ocorre porque o administrador não compartilha com a enfermagem as dificuldades da instituição e não estabelece metas claras.

Para o tripé administrador, médico e enfermeiro dar certo é necessária transparência da gestão, planejamento de ação em equipe, respeito entre profissionais e conhecimento científico. Montar um "time" com pensamento universal do que consiste a adequada assistência ao paciente e que todos caminhem na mesma direção.










Humanismo

O médico é ensinado a fazer diagnóstico e tratar afecções. Se vai ou não desenvolver relacionamento mais estrito com o paciente é alea-tório. Espera-se que o bom médico acerte diagnósticos e trate de maneira precisa o paciente, dimi-nuindo o sofrimento ou a dor. Mas isso não é suficiente: falta ensinar que uma boa relação entre médico e paciente é essencial para a cura.

A enfermeira é muito mais mãe que cientista. Um cura, o outro acalenta e é mais fácil este último levar o ônus da cura, pois está ao lado na hora do sofrimento e ajudar é mais apreciável que ministrar antibióticos corretamente ou operar com precisão. A tolerância só vem com o tempo, quando a equipe de enfermagem passa a ter confiança no jovem médico, que por vezes vê suas condutas alteradas mesmo para correção de gafe pelo enfermeiro. Temos que aprender a nos entender médicos, descendo do degrau e vendo os doentes como se-melhantes, e enfermeiros a respeitar os que merecem seu respeito.

Já administradores têm que conci-liar o financeiro e a saúde, dois tópicos bem antagônicos. Nunca as medidas médicas podem estar subjugadas às financeiras ou vamos incorrer no erro de fazer medicina de pior qualidade. O problema é que saúde é algo extremamente caro. Acho que o melhor modelo seria o Estado prover saúde, que não visa lucro e pode até repartir os prejuízos entre a população. É garantia constitucional dar saúde. Lucrar com ela, não dando alternativa para o cidadão é desonesto. O administrador, no final das contas, não tem culpa, pois ele tem que fazer o sistema dar lucro. O erro está em fazer o negócio dar lucro.