JUNHO/JULHO DE 2002
NÚMERO 37
ANO 4
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MOTIVAÇÃO
 
Luiz Marins

Doutor (Ph.D) em Antropologia e pós-doutorado em macroeconomia.


As lições do caso Romário

Ele marca gols! É artilheiro disparado! Por que não foi logo o primeiro a ser convocado para a Seleção Brasileira? Como não sou muito entendido em futebol, entrevistei mais de cem pessoas de todas as idades, de várias cidades e estados, e portanto, torcedores de vários times, fazendo as mesmas perguntas: 1) Por que o Romário não foi convocado? 2) Você gostaria de estar na posição de técnico do Romário? 3) Qual, na sua opinião, a maior característica de personalidade do Romário? 4) Você conhece na sua empresa ou no seu círculo de amizades pessoas seme-lhantes ao "tipo" Romário? 5) Qual a sua opinião sobre elas? E ainda fiz algumas outras perguntas para "checar" e "cruzar" as respostas, co-mo por exemplo Se o Romário jogasse na Seleção e marcasse um gol ele iria "abraçar o Felipão" como todos fazem? O que ouvi foi surpreendente.

Algumas pessoas disseram que o Romário não foi convocado porque o Felipão "simplesmente não gosta dele" ou ainda "que o Felipão só gosta de jogador que não apareça mais que ele". Outros disseram: "O problema é que o Romário é indisciplinado. Não gosta de concentração. Não cumpre horários. Desagrega a equipe" ou ainda "Ele só fica na sombra esperando a bola e não joga para o time".

Poucos dos meus entrevistados gostariam de ser técnico do Romá-rio. Gostariam de ser o "dono do time", mas técnico, não. "Ele é difícil de lidar". "Quando ele não quer, simplesmente não joga. Ele desafia a disciplina e não quer cumprir os regulamentos", foram os comentários. A arrogância, o ser "cheio de si" e ainda "indisciplinado" ou "preguiçoso" foram características de personalidade apontadas.

Mas o que mais me chamou a atenção foi que todos disseram co-nhecer "vários Romários" na vida e na empresa. São pessoas que marcam gols, verdadeiros craques, mas "são indisciplinados, desagregam a equipe, jogam só para si mesmos, dizem o que querem, mesmo contra a empresa em que trabalham, são preguiçosos, não querem participar de programas de treinamento, qua-lidade. Acham que sabem tudo e até humilham os seus companheiros de trabalho etc". Mas, são verdadeiros artilheiros. Vendem muito. São verdadeiros campeões.

E agora? Que conclusões podemos tirar? Vale ou não a pena ter um "Romário" em nossa empresa, em nosso time? Será possível mudar um "Romário", tornando-o mais disciplinado, menos arrogante? A verdade é que nenhum diretor, ge-rente, chefe ou supervisor gostaria de ter um "Romário" como (in)su-bordinado. Embora ele "marque gols", entenda do que faz e o faça como um artilheiro, a verdade é que hoje é necessário jogar em time, em equipe, aceitar as regras e cumpri-las em benefício do time e ser disciplinado.

Assisti a um programa de esportes na televisão em que um preparador físico que havia trabalhado com o Romário declarou que ele "é mesmo diferente". "Num treino que fizemos, ele ficou o tempo todo sentado na bola. E eu perguntei ao técnico porque o Romário não estava trei-nando e o técnico respondeu: - Hoje ele não quer treinar. O treinamento dele hoje é só ficar sentado na bola". O mesmo preparador físico disse que tinha que fazer tudo diferente para o Romário. "Ele simplesmente não fazia os exercícios solicitados. A solução era dizer a ele que então ele fizesse o que quisesse".

Num outro programa, vi uma série de videotapes em que o campo estava meio no sol e meio na sombra (em jogos em final de tarde). O Romário ficava parado na sombra. De repente ele corria para o sol marcava o gol e voltava para a sombra, esperando a próxima bola.

Pessoas com o temperamento e a personalidade de um Romário serão sempre um problema para serem "convocadas" para a Seleção o que na empresa significa receber uma promoção, serem convidadas para um nova oportunidade de crescer. Pessoas "difíceis" como o Romário podem jogar muito bem mas poderão ser deixadas de fora por aqueles que têm o poder de convocá-las, pois sempre representam uma ameaça ao espírito de equipe que um time tem que ter.

Você quem é? Você é um Romário ou está na posição de um Felipão? Você convocaria o Romário para a Seleção? Você convocaria um "Ro-mário" para trabalhar na sua empresa, no seu departamento, no seu time? O que fazer com quem vende muito mas fala mal de sua empresa e da sua marca? O que fazer com quem vende muito mas não cumpre prazos, não entrega relatórios, não participa de treinamentos e de reuniões matinais, não quer fazer visitas pós-venda e que acha que tudo o que você, gerente, diz é bobagem e coisa de quem não é "campeão" como ele (vendedor)?

Se você é um "Romário" também tem um problemão pela frente. Você, é claro, está louco para ser "convocado". Até o povão pede a sua convocação. Você chora, pede desculpas pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Mas, quem tem o poder de convocá-lo, simplesmente prefere correr o risco de não ter "o artilheiro" na equipe do que ter alguém que ele (chefe) acha que pode desagregar o time.

E você, embora "campeão de gols" pode se ver, de repente, desempregado. Um currículo maravilhoso, um currículo cheio de vitórias e títulos talvez não seja suficiente para que você seja "convocado". Ninguém quer ser seu "técnico" ninguém quer ser seu chefe, seu gerente e talvez pouca gente queira, na verdade, ter você como colega de trabalho. O seu pecado é que você é "bom demais" para qualquer time que exija disciplina, espírito de corpo, humildade e luta. Será que o Romário é assim? Será que você é assim?

A verdade é que a polêmica do "caso" Romário é maior do que a da Casa dos Artistas ou do Big Brother. "Tantas cabeças, quantas sentenças", como diz o ditado latino. Não há unanimidade de opinião, nem se consegue o consenso. Afinal, no futebol, como na vida, o importante é "marcar gols". O resto é vã filo-sofia....

Será? Pense nisso. Sucesso.