JUNHO/JULHO DE 2002
NÚMERO 37
ANO 4
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DESENVOLVIMENTO
 
José Ribamar Branco Filho

Infectologista


A educação médica como ferramenta de gestão

O processo de educação mé-dica continuada no Brasil necessita entrar na agenda dos dirigentes das instituições pú-blicas e privadas como prioridade da sua gestão.

Devemos ressaltar o processo de mudanças que a medicina sofreu ao longo das últimas décadas que foram substanciais e numerosos. Com as novas tecnologias, a melhora na metodologia de estudos clínicos e a disponibilidades desses co-nhecimentos, através da internet nos anos noventa, tornou-se neces-sário repensar um novo formato do processo de atualização e aprimoramento do profissional médico espa-lhado em um país de dimensões continentais.

Paralelamente, os custos da assistência médica têm aumentado em escala geométrica, devido a maior expectativa de vida e incorporação de novos avanços diagnósticos e/ou terapêuticos (os transplantes, tratamento de vários tipos de câncer e desenvolvimento de novos medicamentos).

Há no mundo uma obsessão pela redução nos custos e pela necessidade de lucro cada vez maior, tornando a medicina um negócio lucrativo. Dessa forma, tem-se observado nas políticas públicas e privadas de saúde uma política de redução de custos, principalmente nos países desenvolvidos. No Brasil, muito se tem falado nisso e na diminuição de desperdícios de recursos. Devemos lembrar que os recursos para saúde entre nós são muito inferiores às reais necessidades da população, onde o setor público, com um orçamento próximo de 20 bilhões de dólares/ano, é o responsável em fornecer assistência médica para nada menos de cerca de 130 milhões de pessoas.

Atualmente, os formadores de opinião na área da saúde têm entrado em muita discussão sobre a validade e a necessidade de implantar os famosos protocolos clínicos, a racionalização de custos, a medicina baseada em evidências e a educação médica à distância, com uma ênfase forte no controle dos custos da prestação de serviços em saúde. Muitos entendem, de forma errô-nea, que controlando os médicos, os custos serão automaticamente diminuídos. Esquecem que muitos dos custos da saúde são estimulados pelas propagandas das medicinas de grupo e dos seguros-saúde que oferecem seus produtos com um forte apelo para a assistência médica de alta tecnologia e para o transporte aéreo, e, por outro lado, muitos hospitais incentivam os procedimentos de alto custo para manterem seus rendimentos.

Em nossa opinião, no momento, há duas iniciativas com focos principais na educação médica, que adaptada à realidade de cada hospital, deverão resultar em um ganho de qualidade para a população. A primeira é a Conexão Médica que, a partir da disponibilidade de comunicações digitais e de banda larga, torna possível levar seu programa de ensino e educação continuada à distância, proporcionando ao pro-fissional médico em qualquer localidade uma atualização científica selecionada entre alguns dos principais centros médicos do mundo, sem sair do seu ambiente de trabalho.

A segunda é Projeto Diretrizes desenvolvido pela Associação Médica Brasileira e pelo Conselho Federal de Medicina, juntamente com as Sociedades de Especia-lidades, com objetivo de auxiliar na decisão médica e otimizar o cuidado com os pacientes ao elaborarem as diretrizes médicas baseadas nas evidências científicas disponíveis na atualidade. O projeto tem por objetivo conciliar informações da área médica a fim de padronizar condutas que auxiliem o raciocínio e a tomada de decisão do médico. As informações contidas nesse projeto devem ser submetidas à avaliação e à crítica do médico, responsável pela conduta a ser seguida, frente à realidade e ao estado clínico de cada paciente.

Todos esses avanços tecnológicos de comunicação e informação deverão produzir profissionais mais atua-lizados, tendo como objetivo oferecer para a sociedade uma medicina de alta qualidade e de baixo custo, conforme ela exige. O diretor clínico ou técnico juntamente com a diretoria administrativa dos hospitais deveriam priorizar e viabilizar essas iniciativas, pois agregará valor aos processos administrativos da gestão hospitalar. O geógrafo Milton San-tos dizia que política é a arte de pensar mudanças e de criar as condições para torná-las efetivas. Devemos pensar em nossa política de saúde, nos nossos hospitais, dentro desse contexto.