JUNHO/JULHO DE 2002
NÚMERO 37
ANO 4
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CRÔNICAS MÉDICAS
 
Stanley Baptista de Oliveira

Médico e escritor
Histórias de um médico do interior

Maria Pedra

Quando vi Maria Pedra, ela já estava internada na enfermaria da clínica médica: preta, cabelos desgrenhados, olhos encovados e sem brilho, rosto ma-gro, chpado, lábios grossos, feridos, dentes podres, quebrados, gengivas sangrando, um mau-hálito terrível. Língua e mucosas descoradas, brancas. Magérrima, pernas finas, joe-lhos pontudos. Era pele e osso.

Maria Pedra estava deitada de lado, encolhida, em posição fetal. Balbu-ciava palavras sem sentido, em voz baixa, quase inaudíveis. Sua doença era desnutrição crônica, anemia carencial e atrofia dos membros inferiores. A confusão mental e os períodos de agitação e alucinação eram conseqüência da desnutrição. Dava pena e horror olhar aquela pessoa tão descarnada, tão mal-tratada, tão feia.

Vários médicos e vários tratamentos ajudaram no tratamento de Maria Pedra, que dependia em tudo dos cuidados e atenção das enfermeiras. Sua melhora, no entanto, era lenta. Maria Pedra continuava encolhida no leito, sempre com a cabeça coberta pelo lençol, alheia e indiferente às pessoas que tratavam dela e às demais doentes da enfermaria. Eu me irritava com a lentidão com que seu organismo reagia aos remédios e à alimentação adequada que ela recebia. Alimentos que, talvez, ela nunca tivesse usado: carne, ovos, leite, queijo, frutas. Ela comia pou-co, sempre rebelde, jogava a comida no chão, cuspia nas enfermeiras, gritava, xingava palavrões. Ou, então, ficava muda, recusando receber os cuidados necessários.

Eu, já meio impaciente, depois de alguns dias acabei receitando duas ou três transfusões de sangue, numa época em que essas transfusões estavam sendo evitadas. Mas, aquele sangue deu vida nova a Maria Pedra. Ela melhorou, acabou a transfusão mental, a agitação, a re-beldia. Um dia, ela riu para mim, mostrando os dentes podres, a gengiva sangrando.

Nós vamos ter que tratar dos seus dentes, Pedrinha, falei para ela.

Ela riu e disse que iria arrancar todos aqueles cacos.

Maria Pedra devia ter uns trinta anos mas aparentava muito mais. Ela estava melhorando, mas continuava magrela e feia. Um dia, quando entrei na enfermaria, ouvi uma voz linda, cantando músicas caipiras. Era uma voz límpida, bem modulada, meio-soprano. Fiquei surpreso: era a Maria Pedra quem estava cantando. Fiquei feliz e fui até a cama dela, mas, quando me viu, se calou e co-briu a cabeça com o lençol. Brinquei com ela, dei um tapinha em sua cabeça por cima do lençol que a cobria e elogiei a beleza da sua voz.

No dia seguinte, ela estava cantando "Asa Branca", com aquela voz linda. Calou-se quando me viu en-trar na enfermaria. Durante vários dias, a brincadeira se repetiu: pelo horário, ela sabia que eu estava no hospital. Então, cantava até que eu aparecesse na porta da enfermaria, quando cessava o canto. Eu ria, brincava com ela mas ela não mais cantava. Só no dia seguinte.

Maria Pedra melhorou tanto que chegou o momento de ir embora pa-ra casa. No dia da sua alta, as enfermeiras a enfeitaram toda, deram-lhe um vestido de presente e ela, na cadeira de rodas, se despediu do hospital cantando alto, enchendo os corredores com sua belíssima voz.

Agora, estou deitando na cama, no escuro, sem sono, pensando na Pe-drinha, tentando fazer o sono che-gar. Estou idealizando um final feliz para essa minha cliente: estou vendo a Maria Pedra extraindo os dentes estragados. Já estão preparando uma dentadura para ela. Maria Pedra fi-cara famosa por causa da sua belíssima voz e vai dar um recital de música caipira, de reza cantada, de música nordestina, no salão A do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Ela aparece no palco le-vada numa cadeira de rodas as lesões nas pernas, a atrofia muscular, são irreversíveis, mesmo naquele meu devaneio. O teatro está lotado. Maria Pedra está usando um vestido azul claro, comprido, e encanta a platéia com a sua voz di-vina. É aplaudida de pé. Grava CDs. Dá shows pelo mundo afora. Fica rica. As conseqüências da antiga desnutrição permanecem: as pernas atrofiadas, os olhos arregalados, mas Maria Pedra está rica e famosa graças à sua voz que a desnutrição não afetou.

Ainda, no meu devaneio, idealizei mais alguns sucessos e alegrias para Maria Pedra, mas o sono apareceu, acabei dormindo, sabendo que aquele seria um sonho impossível e que logo Maria Pedra iria voltar à cachaça, à desnutrição.