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Histórias
de um médico do interior
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Sigilo profissional
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Mal acabara de assentar-me par ao jantar, quando o rapaz entrou correndo no refeitório do Hotel Cassino, muito agitado, com a camisa fora das calças.
_ O senhor é o novo médico?
_ Sou, respondi.
Vim buscar o senhor para ir lá em casa, urgente, porque meu pai está passando muito mal.
_ O que seu pai está sentindo, perguntei, olhando, já meio desconsolado, para a sopa de macarrão que esfriava no prato.
_ Não sei, doutor, mas ele está muito mal, muito mal. A essas horas ele deve estar morrendo, disse o rapaz, que começou a chorar.
Aquilo foi suficiente para me comover, convencer-me da gravidade do caso, fazer-me esquecer da sopa de macarrão e subir correndo ao meu quarto, onde apanhei a maleta com os instrumentos e alguns remédios de urgência. Desci correndo as escadas do hotel e, junto com o rapazinho, entrei no velho táxi que nos aguardava. O chofer, um sujeito magrelo, bigodinho ralo, pele morena, cor de chica-bon, logo pôs o motor do carro a funcionar e arrancou.
_ Onde você mora, perguntei ao rapazinho.
_ É longe, lá em Vila Tanque. Quando nós chegarmos lá, meu pai já deve estar morto. Ele estava passando muito mal, respondeu, com voz de choro.
_ Então corra o mais que puder, falei para o motorista.
_ O carro está dando o que pode, doutor.
Assim que chegamos à casa do doente, entrei correndo pela sala e, ou porque estivesse com muita pressa ou por estar muito nervoso por ser aquela meu primeiro cha-mado a domicílio, o fato é que entrei no quarto errado e surpreendi uma velhinha de uns 80 anos de idade, trocando de roupa. Ela deu um grito, assustada, cobrindo-se com as mãos, e enquanto eu retrocedia, vermelho, pedindo desculpas. Fui conduzido ao quarto do doente, um senhor aparentando mais de 60 anos, que estava deitado na cama, todo esticado e tenso, com a boca rigidamente fechada, respirando com ruído, como se fosse uma velha locomotiva a vapor, subindo a serra.
Respiração de Cheyne-Stokes ou será de Kussmaul, pensava, en-quanto pegava no pulso do velho, tentando disfarçar meu nervosismo e inexperiência. A família, toda reunida no quarto, olhava em silêncio e com ar apreensivo para o jovem médico.
Graças a Deus meu pai está vivo, gritava o rapazinho que fora me buscar no hotel. Olhei assustado para ele, que comemorava o pai ainda vivo, enquanto media a pressão do paciente, auscultando seu coração e pulmões. Tudo, aparentemente, normal. Pupilas normais. Hálito? Tentei abrir a boca do velho para verificar seu hálito mas não consegui, pois ela estava rigidamente fechada.
Tétano! Deve ser tétano!, pensava, aflito. Será que é tétano, ponderei. Não encontrei ferimentos no corpo. Apalpei o abdômen, que estava duro, tenso. Será abdômen agudo? Abdômen de tábua?
Estava
eu nessa indecisão, cheio de dúvidas e incompetências, a
família em volta, em silêncio, o paciente bufando com os lábios
cerrados, quando a velhinha de 80 anos (a tal que fora surpreendida, trocando
de roupa) entrou no quarto, dizendo:
- Ô, seu doutorzinho, não é a primeira vez que ele dá esses ataques de nervo, não. Desde menino que ele me dava trabalho com essas manhas. È só alguém fazer raiva nele que ele fica bufando e espumando igual a um bobo.
Histerismo! Ataque de histerismo! _ afinal diagnostiquei, exultante mas em silêncio.
Mal a velhinha acabou de falar, o doente abriu os olhos, assentou-se na cama e começou a xingar a mãe, que fora a causa de sua raiva, pois entrara no banheiro para tomar banho exatamente na hora em que ele se preparava para também to-mar banho.
_ Meu horário de banho é sagrado! gritou ele para a velhi-nha, sua mãe, que, muito lépida para a idade, saiu do quarto, dando uma boa risada.
Guardei meus instrumentos de exames na maleta marrom, receitei um calmante, lavei as mãos na água morna da bacia que estava sobre a mesa e saí. Fora da casa o carro me esperava. Entrei na frente, junto com o chofer.
Mal o carro começou a andar, sem maiores preâmbulos, o chofer virou-se para mim e, com a cara mais lambida deste mundo, perguntou:
_ O que o velho tinha, hein, doutor?
Pego de surpresa, fiquei indeciso, mas logo lembrei-me do Código de Ética Médica, do juramento de Hipócrates, do respeito ao sigilo, ao segredo. O chofer, olhando-me com interesse, num sorriso esboçado, aguardava a resposta.
_ Seu carro é Chevrolet? Respondi, para desconversar o curioso.
_ É, doutor, Chevrolet 41, um bom carro. Já estou com ele há 16 anos e nunca precisei levar ele na oficina.
E animou-se nos elogios ao carro, contando histórias mirabolantes sobre o automóvel, enquanto eu me sentia satisfeito em ter encontrado um modo delicado de desviar a curiosidade daquele chofer in-trometido, preservando assim o sigilo profissional, não quebrando o juramento que prestara poucos dias antes na solenidade de formatura. Mas, eis que o chofer, após longa dissertação sobre o Chevrolet 41, torna a perguntar: _ Mas, doutor, o que é que o velho tinha, hein?
Fiquei vermelho, com raiva, não me ocorria outra pergunta para desviar a atenção do indiscreto e curioso chofer para outro assunto e não me sentia animado a passar uma des-compostura nele, por sentir que não ficaria bem a um médico recém-che-gado a Mon-levade indispor-se com um motorista de táxi.
_ É bonita esta parte da cida-de. Com esses eucaliptos... quem plantou tanto eucalipto aqui, afinal falei.
_ Ah, foi o doutor Paulo Gonzaga. Homem bom tava ali _ E passou a elogiar o doutor Paulo Gonzaga, seus feitos, suas obras, com intimidade.
Fiquei, mais uma vez, satisfeito com a saída e, mais ainda, ao ver que estávamos chegando ao hotel onde eu estava morando. Paramos na frente do Cassino. O chofer calou-se, desligou o motor do carro, olhou firmemente para mim com a cara fechada e gritou:
_ Doutor, afinal de contas, que raio de doença o velho tinha?