Os conceitos de APO e APRO
A APO (Avaliação
Pós-Ocupa-ção em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde)
é uma metodologia relativamente re-cente, que está se difundindo
e sendo empregada na avaliação de edifícios destinados
à atenção de saúde. Ela recorre a diretrizes e recursos
tecnológicos diversos, objetivando melhor desempenho, conforto e eficiência
das instituições de saúde, além de detecção
de falhas de projeto, concepção, construção, uso,
manutenção, entre outros itens. A "avaliação
pós-ocupação" está evoluindo, abrangendo, também,
como não poderia deixar de ser, a "avaliação pré-ocupação".
A APO, sem dúvida, constitui recurso valioso, à
disposição de arquitetos, engenheiros e administradores, na apuração
pós-construção e pós-ocupação, da
qualidade e da operacionalidade de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde
(EAS).
Por outro lado, porém, há EAS que se ressentem
da falta de outra avaliação: a APRO (avaliação pré-construção
e pré-ocupação em EAS). Uma avaliação preditiva,
pré-construção e pré-ocupação, detectaria,
a tempo, deficiências e impropridades, bem como atalharia contratempos
e elevados custos de refazimentos. Deficiências, difíceis de serem
sanadas, que remanesces-sem, onerariam a instituição por toda
a sua vida útil.
Seria, no mínimo, altamente cons-trangedor para projetistas,
construtores e administradores caso uma APRO viesse a constatar na ava-liação
de um projeto arquitetônico, ou projeto complementar, antes (felizmente
antes!) de sua cons-trução "heresias" como:
- Gestantes, pacientes idosos e depauperados
serem obrigados a vencer escadarias, ou mesmo, terem que transpor obstáculos
como o de um simples degrau.
- Pacientes internados serem estressados por
ruídos provenientes de "tubos acústicos", constituídos
pelos espaços criados por forros falsos, mal concebidos ou mal executados.
- Ambientes inadequadamente di-mensionados para
conter equipamentos e operadores.
- Mortes e acidentes por falta de planejamento
preditivo e de segurança.
- Ocorrências de quedas e acidentes decorrentes
de pisos escorregadios ou quedas por janelas desprovidas de proteção.
- Paciente eletrocutado por falta de "nível
equipotencial".
- Médico impossibilitado de acu-dir,
a tempo, em caso de emergência, por insuficente número de elevadores.
- Dispersão de fungos e bactérias
por instalação de equipamento inadequado de condicionamento
de ar.
- Acidente em escada, decorrente de falta de
corrimão.
- Pacientes descerebrados por falha no suprimento
de oxigênio ou por dosagem excessiva de nitrogênio na recomposição
de ar estéril.
- Bombeiros impossibilitados de acudir, a tempo,
a incêndio em hospital infantil, pela barreira interposta por grades
de proteção.
- Infecção decorrente de pressão
negativa criada em rede de água potável.
- Falta de competitividade por deficiente eficiência
física e funcional.
- Disposição física e fluxos
mal resolvidos, contra-pondo-se a ne-cessidades administrativas e médico-assistenciais.
- Falta de equacionamento de percurso, distância
e freqüência, en-compridando andanças inutilmente.
- Recepcionista impossibilitada de aproximar
sua poltrona da mesa de trabalho, dado o posicionamento da gaveta à
altura do joelho.
- Bancada de laboratório dotada de ressalto
perimetral sobrelevado, impossibilitando a retirada de lâmina de microscópio
de sua superfície.
- Paciente exposto à chuva, à
saída de carro, por insuficiente cobertura da marquise.
- Descarga de bacia sanitária dada perdulariamente
com água potável, clorada, por ausência de sistema de
água não potável (de chuva, de lavagem, de lençol
freático etc).
- Desperdício de energia elétrica
pela não provisão em projeto de ventilação e insolação
natural cruzada.
- Excesso de número de funcionários
por falta de fluxos racionalizados.
- Construções e acréscimos
desordenados, por falta de plano diretor
- Pacientes estressados por falta de humanização
física e assistencial.
- Cabeceira de cama de paciente, colidindo com
maçaneta, por falta de localização à altura correta.
- Foco de teto, agredindo paciente acamado,
decorrente da falta de luz indireta ou de arandela.
- Desperdício de água condensada de calandra
por incapacidade de retorná-la à caldeira, à temperatura
elevada.
- Encompridamento e desperdício de canalizações
por falta de provisão de "passadutos" (shafts) e de passagens
através de vigas.
- Desperdício de espaço por provisão
de antecâmara dispensável.
- Manutenção precária,
decorrente de dutos inacessíveis.
- Revestimento melamínico "desbeiçado"
em portas e balcões por falta de "encabeçamento".
- Cantos curvos, onerosos, de difícil
execução, higienicamente dispensáveis.
- Objeções a instalações
sanitárias dentro da cozinha e à integração física
de parto e cirurgia, frutos de tabus e preconceitos ultrapassados.
- Pisos, acabamentos e tintas "germicidas",
fruto de propaganda enganosa, gerando falso sentimento de segurança.
- Riscos biológicos por biossegurança
falha.
- Sem dúvida, quando o Código
de Defesa do Consumidor for mais difundido e melhor conhecido, muitas das
"heresias" sujeitarão seus autores a questionamentos e responsabilidades
técnicas, econômicas e judiciais.
(*) Arquitetos hospitalares