AGOSTO/SETEMBRO
DE 2002
NÚMERO 38
ANO 4
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ENTREVISTA
 
Bruno Hoffmann

Mauro Stormovski

Pronto para acelerar

Stormovski: imenso potencial da saúde.

O economista Mauro Stor-movski, 48 anos, diretor da Feira de Produtos e Serviços de Saúde Hospitalar, uma das mais tradicionais do segmento e que este ano completou sua nona edição, vê com otimismo o setor de saúde no País. Membro do res-peitado Institute of Export of England, em Londres, cidade na qual viveu entre 1983 e 1993, Stormovski analisa o mercado co-mo em plena expansão.

Segundo ele, os investimentos internos e externos estão cada vez maiores e novos segmentos estão surgindo para quem quer investir no setor. Ótimas opções estão sendo ofe-recidas, por exemplo, na medicina preventiva. O Brasil, para o analista, possui possivelmente o melhor mercado para esse segmento. "A saúde preventiva é a salvação da população e dos negócios", enfatiza. Em entrevista concedida a Notícias Hospitalares, Stormovski comenta como está a situação do mercado brasileiro na área da saúde e sentencia: "daqui a mais ou menos 15 anos o dinheiro investido atualmente retornará na diminuição dos gastos com saúde".

NH - Como está o volume de negócios no mercado de saúde em 2002?

Mauro Stormovski - O mercado de saúde este ano sofreu um acréscimo muito grande, principalmente no orçamento público. O ex-ministro José Serra, claramente, incrementou bastante o orçamento público. No início do seu mandato eram R$ 18 bilhões e hoje estamos por volta de R$ 28,6 bilhões. Realmente, é um grande incentivo ao consumo de massa, às políticas de família, às políticas de cuidadores de municípios. Houve um grande acréscimo de volume de recursos e, conseqüentemente, de vo-lume de negócios.

NH - Qual foi o reflexo dessa política no segmento privado da saúde?

Mauro Stormovski - A parte privada do mercado dificilmente muda, pois essa parte já vem em um consumo mais ou menos constante. Obviamente, a parte privada tem um acréscimo marginal em termos de consumo. Mas, o grande consumo ainda está no poder público por meio das campanhas de massa.

NH - Quais os setores então que estão movimentando mais negócios?

Mauro Stormovski - Sem dúvida alguma, o farmacêutico. Isso se deve, principalmente, às campanhas de remédio genérico, extremamente bem dirigidas, dando cobertura a um número cada vez maior de pessoas. A população brasileira está envelhecendo e isso acarreta aumento do uso de medicamentos. Podemos perceber também que outras campanhas públicas de massa estão alavancando vários setores da saúde. Cada vez que há uma campanha pública de exame de mamografia, por exemplo, há exames laboratoriais e medicamentos a serem ingeridos.

NH - Qual o potencial de ne-gócios na área de saúde?

Mauro Stormovski - É imenso. Nós medimos esse potencial pelo número da população brasileira. O Brasil tem cerca de 170 milhões de habitantes, dos quais somente 25% possuem planos de saúde. Isso significa que há um mercado em expansão muito grande. Obviamente, há cerca de cinco mil hospitais públicos no Brasil que dão atendimento aos outros 75%. Porém, ainda não é a medicina preventiva, e sim a curativa e paliativa. A medicina preventiva está, no País, em estágio inicial e ainda é dirigida aos 25% da po-pulação que possuem planos de saúde.

NH - Quer dizer que é bom negócio os investidores se voltarem à saúde preventiva?

Mauro Stormovski - A saúde preventiva é a salvação da po-pulação e dos negócios. Ela dá condições de identificar os males genéticos e, por meio dessa identificação, há condição de tomar atitudes pró-ativas com relação às doenças em potencial que porventura possam existir. Os planos de saúde, que são os grandes pagadores das contas, principalmente no setor privado, não tem saída. O caminho é a medicina preventiva. O governo, por meio das campanhas educativas na área de saúde, está tentando educar a população, pois quanto mais educação mais saúde existirá no País. Os ministérios da Educação e da Saúde estão trabalhando concomitantemente.

NH - O que significa esse traba-lho conjunto?

Mauro Stormovski - Quanto mais educação para a sociedade mais ela perceberá a importância da saúde. Isso, necessariamente, vai expandir o mercado preventivo. A medicina curativa e paliativa será somente para população que já adquiriu a doença. Como eu já disse, a população está envelhecendo. Atualmente, há uma quantidade enorme de pessoas com mais de 50 anos. Mesmos essas pessoas, se começarem a se tratar preventivamente, poderão viver mais. Em qualquer momento que a medicina preventiva entrar no País haverá uma faixa populacional que se enquadrará. Por outro lado, há hoje no Brasil cerca de 90 mi-lhões de habitantes com menos de 30 anos. Se investidores entrarem no ramo da medicina preventiva verão que o País é um grande mercado nesse seg-mento.

NH - E em relação ao mercado latino-americano?

Mauro Stormovski - O Brasil assume na América Latina uma grande referência, pois o perfil da população latino-americana é muito próximo ao perfil da população brasileira. Qualquer empresa que faça algo no Brasil tem a possibilidade, por conseqüência, de entrar no mercado latino-americano. É mais ou me-nos como uma empresa que faz algo em São Paulo, que é o centro econômico do País. Se der certo, extrapola seus domínios para o Brasil. Depois, naturalmente, para um mercado com perfil econômico semelhante, que é a América Latina.

NH - Se formos pensar mais adiante em termos de mercado, qual o próximo, além da América Latina?

Mauro Stormovski - Sem dúvida, a África. Esse é o próximo grande mercado às empresas brasileiras que conseguiram se estender à América Latina. A África tem um perfil muito semelhante às regiões mais ca-rentes do Brasil. As empresas que conseguirem sucesso no Brasil e na América Latina estão preparadas para tomar conta do mercado africano. O mesmo problema respiratório que uma pessoa em Brasília tem, devido ao ar árido, pode ter no Mar-rocos ou na Líbia e o inalador de ar de uma empresa brasileira pode ser vendido tanto aqui como lá. O mercado africano precisa, principalmente, de pre-ço, e não de tecnologia.

NH -Quais os empecilhos para o crescimento maior dos negócios?

Mauro Stormovski - Os empecilhos são de ordem tecnológica, de manutenção, de qualidade. As empresas brasilei-ras estão se aperfeiçoando e buscando componentes adequados para que o estágio tecnológico dessas empresas, melhorado em relação aos seus principais competidores, principalmente chineses, coreanos, indianos e paquistaneses. Isso ocorre devido a esses países terem mercado com um perfil de consumidores semelhante ao nosso. O norte da África está muito mais perto da China do que do Brasil. Um produto brasileiro para chegar lá demora 45 dias de navio. Da China, 12 dias. Por isso, o Brasil precisa compensar com bom preço. As empresas brasileiras que buscarem novos componentes e que se adequarem às normas internacionais, com certeza, estarão capacitadas a serem grandes empresas no ramo da exportação. Já temos várias e poderemos ter ainda mais se focarmos principalmente no mercado que busca preço atraente.

NH - A alta do dólar está afetando o segmento?

Mauro Stormovski - Sem dúvida. Quando se vende no mercado local é em real. Quan-do se realiza concorrência pública, também. Quando o produto é importado, de-vido à variação cambial negativa, o risco passa a ser das empresas importadoras, pois não se repassa a varia-ção cambial para o preço do produto. Porém, es-se fato dá uma competitividade à empresa nacio-nal ainda maior. Por exemplo, de janeiro de 2002 até julho deste ano, houve uma variação cambial negativa de cerca de 25%. Trocando em miúdos, isso acarretou aumento de preço em reais dos produtos im-portados. A empresa nacional que não aumentou o seu preço conseqüentemente está vendendo.

NH - O segmento tem recursos escassos, obrigação de reduzir custos e necessidades de investimentos nos hospitais brasileiros. Como conciliar essas questões?

Mauro Stormovski - Rentabi-lidade se busca de duas formas. Primeiro, aumentando a capacidade de vendas e, segundo, reduzindo os gastos. A racionalização tanto no aumento da capacidade de vendas e na diminuição de custos, de diversas formas, faz com que hospitais, clínicas e laboratórios, sejam vistos como empresas. Empresas têm que dar lucro. Isso tem acontecido. Os hospitais deixaram de prestar servi-ços em determinadas áreas. Al-gumas instituições não prestam mais serviço ao SUS pelo fato de o sistema público não remune-rar adequadamente. Muitas ins-tituições estão buscando profissionais mais qualificados, como admi-nistradores profissio-nais, um caminho para reduzir custos. Insisto que a não ser que seja uma ins-tituição fi-lantrópica, os hospitais, clínicas e la-boratórios, são empresas e, necessariamente, têm que dar lucro.

NH -Em que itens os hospitais e clínicas então investindo com mais intensidade?

Mauro Stormovski - Na área preventiva os hospitais estão investindo muito nos equipamentos de imagem, como a tomografia, buscando identificar eventuais doenças dos pacientes. Estão investindo bastante também na área curativa, em centros cirúrgicos, tratamento intensivo, salas de recupe-ração e fisioterapia, pois há uma grande camada de população idosa no Brasil. Na área paliativa, os investimentos concentram-se principalmente em centros ci-rúrgicos, quimioterapia, para prolongar a vida do paciente e dar-lhe um fim de vida digno.

NH - Os programas públicos de investimentos vêm contribuindo para algum tipo específico de investimentos dos hospitais e clínicas?

Mauro Stormovski - Sem dúvida. O governo tem feito programas educacionais mara-vilhosos. Atualmente, cerca de 95% das crianças entre sete e 14 anos estão na escola. Esse fato refletirá, daqui a dez anos, na melhoria do asseio da população. Uma população mais educada pegará menos doenças relacionadas à falta de higiene. O governo, ao investir na educação, prevê esse fato. Daqui a 15 anos, mais ou menos, esse dinheiro investido atualmente retornará na diminuição dos gastos com saúde. Isso vai acarretar em volumes preventivos maiores e volumes paliativos menores.

NH - Qual o impacto do incremento do home care nos custos e no faturamento dos hospitais?

Mauro Stormovski - É importante destacar a importância do serviço também no custo e faturamento dos planos de saúde. Os hospitais têm uma quantidade de leitos infinitamente inferior à necessidade. Aí é que entra o home care. O home care é uma transição de recuperação do paciente. Este, até o terceiro dia em recuperação no leito, dá lucro ao hospital. A partir do terceiro dia, esse paciente entra no chamado custo marginal. Ele já passa a dar um certo prejuízo à instituição. As instituições de saúde, ao conhecerem essa estatística, começaram a tentar acelerar a saída do paciente. Quanto mais rápido puder en-caminhar a pessoa a se tratar em casa, melhor. Pois, dessa forma, a instituição poderá disponibilizar outros leitos. Assim, quanto mais giro, maior qualidade de atendimento e mais lucro. Para os planos de saúde é o mesmo caso. Quanto menos tempo o cliente ficar no hospital, melhor, já que dizem que a remuneração do home care é entre 40% e 70% menor do que a pessoa se recuperar no hospital. Dá para concluir que o home care é um serviço no qual todos ganham. O sistema deve ser incentivado.

NH - Como o sr. projeta os negócios no segmento de saúde para os próximos anos?

Mauro Stormovski - Temos que olhar o passado, pois é sempre referência, e também olhar o futuro. Em 1999, o setor projetava que o mercado se desenvolveria, até 2003, em 12% ao ano. Houve ano em que o crescimento foi de 10% e ano que o crescimento foi de 15%. Então, na média, o mercado se desenvolveu um pouquinho acima daquela perspectiva inicial. Temos que atentar também que o mercado de saúde está ligado ao governo, que é o maior comprador, e também à capacidade privada. Na parte privada, os planos de saúde têm sempre a intenção de se desenvolver. Por conseqüência, quanto mais crescerem mais dinheiro trarão ao setor da saúde. No que diz respeito ao governo, independente do novo presidente, não há como os investimentos se retraírem. O orçamento atual, de R$ 28,6 bilhões na área da saúde, pode ser expressivo, mas se olharmos para a quantidade da população carente, essa quantia ainda é muito pequena. Então, analisando o mercado de saúde no País, em 2003 há a tendência de se manter ou aumentar os investimentos atuais. Após conhecer melhor os planos a serem desenvolvidos no que diz respeito à estabilidade econômica do próximo presidente, o orçamento público, necessariamente, vai aumentar muito mais do que 10% e ainda mais na área privada por causa do crescimento dos planos de saúde.